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Car Culture

Os carros de John Lennon, o mais polêmico dos quatro Beatles

Se estivesse vivo, John Lennon teria completado 80 anos de idade no dia 9 de outubro. É até difícil conceber a ideia de um John Lennon com 80 anos de idade – a mesma idade de Ringo Starr, e dois anos mais velho que Paul McCartney. Na data de hoje, George Harrison teria 77. O tempo passa mesmo.

Teorias de conspiração à parte, foi exatamente em 1966 – mesmo ano em que conheceu Yoko Ono – que John Lennon disse a frase que traria, como última consequência, sua morte. Em uma entrevista à jornalista Maureen Cleave, que conhecia a banda desde 1963, Lennon declarou que, em sua opinião, “os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo”.

A declaração foi publicada no jornal London Evening Standard e, no Reino Unido, não causou controvérsia. Os Beatles eram realmente famosos naquela época e talvez os britânicos compreendessem que qualquer um na situação de John — com apenas 26 anos de idade e à frente daquele que, no momento, era o maior grupo musical do planeta —  ficaria mais propenso a dar declarações polêmicas.

No entanto, não se pode dizer o mesmo dos EUA, onde a repercussão da declaração não foi muito boa. E o americano Mark Chapman, que em 1970 se converteu ao cristianismo, foi um dos que ficaram encolerizados com a presunção do jovem Lennon. Para ele, o rockstar era um herege que merecia a morte.

Ela veio 14 anos depois da publicação da entrevista quando, perto das 23:00 daquela noite de dezembro de 1980, Lennon voltava para seu apartamento no edifício Dakota, em Nova York, onde morava com Yoko. Mark Chapman parou o músico para pedir um autógrafo e, em seguida, atirou cinco vezes, acertando quatro tiros nas costas de John Lennon. Ele permaneceu na cena do crime até que a polícia apareceu e o prendeu. Ele lia o clássico romance de J.D. Salinger, “O Apanhador no Campo de Centeio” (The Catcher in the Rye), e disse depois que o livro havia sido a inspiração para o crime.

A verdade é que as circunstâncias da morte de John Lennon acabaram por aumentar ainda mais o mito em torno do artista – a ponto de torná-lo quase um mártir que teve todos os aspectos de sua vida escrutinizados pelo público e pela imprensa. E isto inclui, claro, seus carros – que, afinal é o assunto que nos interessa. Já falamos dos carros de George Harrison há alguns dias, então agora é a vez de Lennon. Nas próximas semanas, traremos os carros de Paul McCartney e Ringo Starr.

É curioso dizermos isto porque John Lennon não era exatamente um fã de carros. Na verdade, ele nunca se deu bem com automóveis, e este foi um dos motivos para que o músico só tenha tirado sua carteira de habilitação em 1965, aos 25 anos de idade, quando já era um Beatle famoso — naquele ano, os Beatles foram nomeados membros da Ordem do Império Britânico pela Rainha Elizabeth II; fizeram sua terceira turnê pelos EUA, abrindo com um público recorde de 55.600 pessoas; e ainda lançaram Rubber Soul, um dos maiores clássicos da banda, embalado por hits como “Drive My Car”,  “Norwegian Wood (This Bird Has Flown)” e “In My Life”.

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Lembre-se, estamos falando daquele que, possivelmente, era o frontman mais famoso da música na época e, para qualquer fabricante de automóveis, ter um carro na garagem de John Lennon seria uma ótima forma de publicidade (ou ao menos eles achavam que seria). Assim, quando John Lennon finalmente tirou sua carteira de habilitação em fevereiro de 1965 e a notícia circulou pelos tabloides britânicos (claro!), aconteceu algo que parece até mentira: poucos dias depois, em frente à sua mansão em Weybridge, Surrey, Lennon encontrou dezenas de carros novos, enviados por concessionárias — Aston Martin, Jaguar, Maserati, entre outros. Lennon, talvez sem pensar muito, escolheu uma Ferrari azul — o carro que aparece nestas fotos.

É uma Ferrari 330 GT 2+2 Berlinetta. Baseada na clássica 250GT SWB, a 330 GT era uma versão com motor de quatro litros da Ferrari 250 GT 2+2 — esta, primeira Ferrari de quatro lugares produzida em série (e não em pequenas quantidades, como as anteriores). A carroceria tinha entre-eixos mais longo (graças ao deslocamento do motor alguns centímetros para a frente) e proporções elegantes, sendo capaz de levar quatro adultos com conforto para uma volta nos alpes europeus.

 

O V12 de quatro litros (330 cm³ para cada cilindro, daí seu nome) da Ferrari 330 2+2 Berlinetta entregava  mais de 300 cv e era capaz de levar o carro até os 244 km/h, fazendo dele a Ferrari de rua mais veloz de seu tempo. John pagou £ 6.500 pelo carro — em dinheiro de hoje, algo próximo das £ 110.000, ou cerca de R$ 627.000 – e ficou com ele por quase três anos, vendendo-o em 1967. Ao longo deste tempo, colocou respeitáveis 30.000 km no hodômetro.

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Nos anos que se seguiram, a Ferrari passou pelas mãos de alguns colecionadores e chegou até a mudar de cor, sendo pintada de vermelho em 1980. Seu penúltimo proprietário arrematou o carro em 1989 e, em meados da década de 1990, fez questão de devolver à Ferrari sua cor original. Em 2013, o carro foi leiloado pela Bonhams e arrematado por £ 359.900, ou pouco mais de R$ 2.000.000.

A Ferrari, no entanto, foi apenas o primeiro carro de John Lennon, que passou a gostar das máquinas de quatro rodas e continuou comprando automóveis bacanas até o ano de sua morte. Ele também ganhou um Mini Radfort de presente do empresário Brian Epstein, como os outros três Beatles, e seu exemplar era preto. Contudo, diferentemente dos carros de Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, o paradeiro do Mini de John Lennon é desconhecido até hoje.

Mas John Lennon não dirigiu por muito tempo: em 1969 ele sofreu um acidente com um Austin Maxi, hatchback lançado naquele mesmo ano.

John e Yoko, acompanhados de Julian (filho de John) e Kyoko (filha de Yoko) passavam férias na Escócia. Durante um passeio por uma das sinuosas estradas do país, Lennon perdeu o controle do carro e caiu em um barranco. Os quatro sofreram apenas escoriações e tiveram que levar alguns pontos e se recuperaram rápido, mas foi o que bastou para que Lennon decidisse que era hora de abandonar o volante e deixar que um chauffeur o conduzisse por todos os lugares.

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Ainda em 1965, John Lennon teve  um Rolls-Royce Phantom V, sedã de alto luxo que teve apenas 516 unidades produzidas entre 1959 e 1968.

Naturalmente, o carro de John era ainda mais exclusivo: como Janis Joplin fez com seu Porsche 356, o músico pintou a carroceria com desenhos psicodélicos, e aproveitou  o entre-eixos de quase quatro metros para transformar o banco traseiro em uma cama de casal. O interior do carro também tinha uma televisão e uma geladeira.

Outro clássico britânico que o músito teve, acredite, foi um carro funerário — um Austin Princess 1956 que foi registrado em seu nome no ano de 1971. O carro pode ser visto no filme Imagine, lançado por John e Yoko em 1972 para acompanhar o álbum de mesmo nome. Em 2016, o Austin Princess foi leiloado pela RM Sotheby’s e arrematado pelo equivalente a R$ 578.000 – valor que foi doado para instituições de caridade.

Em 1972, já morando em Nova York, John Lennon dirigia esta Chrysler Station Wagon. O carro foi comprado novo pela Apple Records, gravadora de John, e escolhida pessoalmente pelo ex-Beatle. Ele gostava bastante do carro por dois motivos: o enorme porta-malas era excelente para acomodar os equipamentos de sua banda, e seu aspecto comum permitia que ele dirigisse pelos subúrbios praticamente despercebido.

Dois anos antes, em 1970, John Lennon estava prestes a mudar-se para os EUA. Sendo assim, ele precisou se desfazer de um de seus automóveis mais preciosos: uma limusine Mercedes-Benz 600 Pullman, que está entre os carros mais luxuosos de todos os tempos. Para compra uma destas, só mesmo um Beatle — ou um ditador, ou Jack Nicholson…

John teve, ainda outros dois Mercedes-Benz — um conversível 230SL 1965 e uma discretíssima perua 300TD a diesel bege, que foi seu último carro e ainda pertencia a ele no dia de sua morte.

A perua ainda não estava disponível nos Estados Unidos, mas a Mercedes-Benz dispôs-se a importar um exemplar da Europa especialmente para o músico.

E ele não andava com uma placa onde estava escrito “JOHN LENNON”, obviamente. Acontece que, ao comprar um carro que pertenceu a John Lennon, os colecionadores gostam de deixar isto bem claro – e dá para entender o motivo perfeitamente.

Há também registros de uma única motocicleta que pertenceu a John Lennon: uma Honda Monkey, mini-moto com motor de 49cc e pegada off-road na qual o ex-beatle dava passeios com o filho Julian. Ela foi vendida em 2018 por £ 57.500 (R$ 420.000).

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