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Automobilismo

Os cinco pilotos mais azarados da história da F1

Você já sabe por que eu resolvi trazer os pilotos mais azarados da história da F1 não é? Depois do incidente com o pobre Leclerc na Rascasse, provavelmente o caminho por onde ele passava para ir à escola todos os dias quando criança, é impossível não achar que há uma nuvem preta sobre seu carro toda vez que ele entra na pista em Mônaco.

Leclerc é uma das maiores promessas de sua geração desde os tempos do kart — algo que se confirmou quando migrou para os monopostos, conquistando o título da GP3 em 2016 e da Fórmula 2 em 2017, o que lhe garantiu o acesso à Fórmula 1 em 2018, ainda pela Sauber.

Apesar do talento, ele jamais conseguiu terminar uma corrida oficial em seu próprio território, o principado de Mônaco, depois que trocou o kart pelos carros. Sua primeira vez no circuito foi em 2017, quando disputou as duas rodadas da Fórmula 2 em Mônaco — a corrida principal e a sprint.

Ele foi pole position na corrida principal, largou em primeiro, liderou a prova e, na volta 26, teve uma quebra na suspensão e abandonou. Por causa disso, no dia seguinte, na sprint race, largou em 17º e se recuperou bem quando um problema elétrico o tirou da pista depois de 20 voltas.

Em 2018, já na Fórmula 1, ele estava na fraca Sauber, sem chances de ganhar, claro. Mas mesmo ali ele não terminou a prova: a oito voltas do final ele teve um problema no disco de freio dianteiro esquerdo e passou reto na Nouvelle Chicane, acertando a traseira de Brandon Hartley.

Em 2019, agora com a Ferrari, ele tinha um carro competitivo que poderia brigar pela vitória, finalmente. Mas deu tudo errado. Um erro da Ferrari o tirou do Q2 e ele largou na 16ª posição.

Mesmo com as dificuldades de se ganhar posições em Mônaco, ele começou uma escalada que, infelizmente, acabou na 12ª posição: quando estava tentando ultrapassar Nico Hulkenberg, Leclerc acabou tocando o muro na curva 17, furou o pneu e rodou.

Depois de fazer a volta toda com o pneu dilacerado, ele ainda tentou voltar após a troca de pneus nos boxes, mas o acidente danificou demasiadamente o fundo do carro e ele abandonou a corrida com apenas 16 voltas. Vettel, com a outra Ferrari, terminou em segundo…

Então veio a pandemia e o Automóvel Clube de Mônaco cancelou a edição de 2020 do GP. Sem chance de correr. Em 2021, Leclerc começou bem o final de semana, conquistando a pole com a Ferrari, com grandes chances de vencer.

Mas… novamente, o azar falou mais alto: no final dos treinos de classificação ele bateu o carro e, apesar de a Ferrari tentar consertá-lo durante a noite, na volta de instalação ficou claro que havia um problema com a transmissão (uma semi-árvore danificada) e ele simplesmente não largou.

Agora, neste último fim de semana, ele só foi fazer uma apresentação com a Ferrari 312 de Niki Lauda — que ele já tinha pilotado anteriormente —, mas uma falha no freio dianteiro esquerdo o fez passar reto na Rascasse. Ô azar.

O azar de Charles Leclerc, contudo, se restringe à sua pista local, o Circuito de Mônaco. Fora dela ele tem grandes feitos como o recorde de segundo piloto mais jovem a largar na pole position, e o mais jovem a vencer o Pole Trophy, concedido ao piloto com mais pole positions na temporada.

Sem contar que ele é o líder do campeonato atualmente, e já venceu quatro corridas, além de ir outras 17 vezes ao pódio. Não dá para chamá-lo de azarado.

O mesmo não pode ser dito destes outros cinco nomes, que certamente são os pilotos mais azarados da história da Fórmula 1.

 

Nico Hülkenberg

Hülk fez tudo certo: venceu campeonatos de kart, foi campeão da Fórmula BMW, depois a Fórmula 3 europeia, a GP2 e, finalmente, chegou à Fórmula 1. E aí as coisas começaram a dar errado.

Começando pelo final: ele é o piloto que mais vezes disputou uma corrida sem chegar ao pódio. E ele chegou perto de conseguir isso em, pelo menos, oito ocasiões (Brasil 2012, Bahrein 2014, Baku, Mônaco, Spa e Brasil em 2016, Singapura em 2017 e Alemanha em 2019), mas deixou a Fórmula 1 em 2019.

Hülkenberg teve grandes momentos em sua carreira, contudo. Um deles é a classificação em terceiro lugar no GP da Itália de 2013, com uma fraca Sauber-Ferrari.

Isso, claro, sem considerar suas pole position em Interlagos, no GP do Brasil de 2010, que o colocou entre os 10 pole-sitters mais jovens da história.

Ou ainda sua ultrapassagem sobre Schumacher (Michael, não Mick…) na entrada da Eau Rouge para conquistar a quarta posição no GP da Bélgica de 2012 e garantir seu melhor resultado na carreira até então — e que, infelizmente, continuaria como o melhor até hoje, ainda que repetido novamente outras duas vezes.

No Brasil, em 2012, ele liderava a prova debaixo de chuva quando um retardatário atrapalhou sua entrada no S e ele para evitar a colisão, acabou perdendo a traseira e acertando Lewis Hamilton, tirando ambos da prova.

Outro foi sua terceira posição no GP da Singapura de 2017, quando ele finalmente parecia próximo de ir ao pódio pela primeira vez em sua já longa carreira na categoria, mas um vazamento de óleo o tirou da corrida e ele acabou conquistando o recorde maldito.

Depois disso, ele pareceu se conformar com o azar, apenas rindo quando as coisas davam errado. Ele deixou a Fórmula 1 no final de 2019, substituído por Esteban Ocon e fez um breve retorno como substituto de Sebastian Vettel nas duas primeiras corridas de 2022.

 

Nick Heidfeld

Dez anos mais velho que Hülk, Nick Heidfeld também fez tudo certo nas categorias de base, vencendo o que poderia ter vencido até chegar à Fórmula 1 ainda no final dos anos 1990 como piloto de testes da Mercedes e da Prost.

Como seu compatriota mais jovem, Nick também tem um recorde maldito: ele é segundo o piloto com mais GP disputados a nunca vencer uma corrida. E só não tem o recorde de mais corridas sem pódio porque foi parar nos degraus laterais 13 vezes — o que é uma marca excelente mesmo com 185 GP disputados.

Suas melhores temporadas foram 2007 e 2008, no período em que foi piloto da Sauber BMW — a fabricante alemã despejou um caminhão de dinheiro na equipe suíça e o carro era realmente competitivo.

Tanto que ela foi vice-campeã de construtores em 2007 e a terceira colocada em 2008, e foi também a equipe pela qual Robert Kubica conseguiu sua única vitória.

Nick, contudo, nunca passou do segundo lugar, posição em que chegou oito vezes. E foi a preferência da BMW por Kubica que, dizem, lhe roubou a chance de vencer. No GP do Canadá de 2008, a estratégia de reabastecimento da BMW fez com que Heidfeld voltasse atrás de Kubica, sem chance de ultrapassá-lo.

Nick tem consciência da estratégia e até hoje diz que ficou um pouco decepcionado com a decisão.

Decisão, lembre-se, lhe concedeu o segundo lugar entre os pilotos que mais disputaram corridas sem vencer em toda a história da F1 — o que é uma ironia, no fim das contas, porque ele não conseguiu chegar em primeiro nem mesmo neste recorde…

Além disso, contando para o azar de Heidfeld, vale lembrar que ele foi o único piloto em toda a história da F1 a se acidentar com o… carro médico!

 

Luca Badoer

Eu sei, você já estava esperando pelo italiano e pela cena mais melancólica da história da Fórmula 1: Luca Badoer desabando em prantos sobre sua Minardi ao abandonar o GP da Europa de 1999.

É uma das cenas mais marcantes de todos os tempos e que precisa do contexto da carreira de Luca para ser plenamente compreendida.

Badoer também foi um grande talento das categorias de base. Ele ingressou na Förmula 3000 Internacional em 1992 e foi campeão na primeira temporada. Só ele e outros três pilotos fizeram isso.

E ele conseguiu o feito sobre caras como David Coulthard e Rubens Barrichello, pontuando em oito de dez corridas, vencendo quatro delas e chegando em segundo em outra. Uma temporada arrasadora.

Apesar do sucesso, ele só conseguiu uma vaga na fraquíssima BMS Scuderia Italia para a F1 em 1993. O carro usava motor Ferrari, mas o chassi Lola era muito inferior ao dos concorrentes. Apesar disso, ele chegou em sétimo no GP de San Marino e 10º em Portugal, depois de ser atrapalhado por Christian Fittipaldi.

Em 1994 a BMS foi fundida à Minardi. Badoer teve uma chance de ir para a Benetton, onde seria parceiro de Schumacher. No fim das contas, a Benetton optou por JJ Lehto e a Minardi ficou com Pierlugi Martini e Michele Alboreto. A Badoer restou a vaga de piloto de testes.

Ele ainda voltaria à titularidade em 1995, mas a equipe sem grana, não desenvolveu o carro e ele não teve chances. Em 1996 ele foi para a Forti Corse e, em 1997, deixou a F1 e foi para a GT1 da FIA. Na GT1 ele foi contratado como piloto de testes da Ferrari, uma função que exerceria até 2010, já perto dos 40 anos de idade.

Mesmo na Ferrari, que tinha um carro competitivo em 2009, ele não conseguiu marcar pontos — pudera, fazia 10 anos que ele não pilotava em um GP — quando substituiu Felipe Massa nos GP da Europa e da Bélgica.

E isso nos traz à melancólica cena protagonizada por ele em Nürburgring, no GP da Europa de 1999. Badoer havia voltado à F1 a bordo da Minardi e naquela corrida tudo estava dando certo para ele. Ele se classificou apenas em 19º lugar, normal para a Minardi. Mas nada menos que 10 pilotos acabaram abandonando a prova por motivos diversos.

Na primeira volta Pedro Paulo Diniz e Alexander Wurz bateram, Damon Hill abandonou com problemas elétricos. Zanardi bateu, Frentzen teve problemas elétricos, Alesi quebrou uma semi-árvore, Coulthard rodou, Takagi bateu, Salo ficou sem freios, Fisichella rodou, Pedro de la Rosa ficou sem câmbio.

A 13 voltas do final restavam apenas 11 carros na pista e Badoer estava em quarto lugar. Era só segurar a posição que ele pontuaria pela primeira vez em sua carreira.

Na verdade ele sequer precisava segurar: se perdesse duas posições ainda terminaria em sexto e conquistaria 1 modesto pontinho. Mas o azar entrou em cena.

A 13 voltas do final, quando estava em quarto lugar, Badoer começa a perder o ritmo, joga o carro para a direita da pista e encosta na grama. Ele atira o volante longe, sai incrédulo do carro, abaixa a cabeça e desaba em prantos sobre o bico do Minardi Ford.

Apenas 11 carros na pista, a chance de uma Minardi pontuar entre os seis primeiros e o maldito câmbio do carro não aguentou a pressão. Depois daquela corrida Badoer disputou apenas quatro GP — sendo os dois últimos da temporada de 1999 e os dois em que substituiu Felipe Massa em 2009.

Foram 50 largadas sem nenhum ponto, uma marca ingrata que nenhum outro piloto conseguiu obter.

Luca Badoer, contudo, foi fundamental para o desenvolvimento dos carros da Ferrari na era Schumacher-Barrichello, quando a Scuderia conquistou seis títulos consecutivos entre 1999 e 2004.

 

Andrea De Cesaris

Aqui temos outro recordista: Andrea de Cesaris é o piloto que está a frente de Nick Heidfeld na lista de pilotos com mais GP disputados sem uma vitória. O alemão largou 185 vezes, enquanto De Cesaris disputou 214 corridas.

E mais: de Cesaris também o recordista de abandonos (148 no total, o que dá quase 70% das provas disputadas), o recordista de abandonos em uma única temporada (16 em 16 corridas em 1987) e também o recordista de abandonos consecutivos (22) e de abandonos consecutivos em uma única temporada (12).

Mas não dá para dizer que ele era um piloto ruim, porque ele tem outros recordes positivos.

De Cesaris foi um dos pilotos mais jovens a ocupar a pole position — tinha quase 23 anos quando foi o mais rápido na classificação do GP do Oeste dos EUA de 1982. Ele fez a volta mais rápida no GP da Bélgica de 1983, o qual liderou após ultrapassar Alain Prost, e abandonou com um problema na injeção de seu Alfa Romeo.

Depois ele ainda foi ao pódio cinco vezes e conquistou 59 pontos em toda a sua carreira (quando só os seis primeiros pontuavam), além de pontuar em nove das 10 equipes pelas quais correu. E ninguém faz isso sendo minimamente talentoso.

De Cesaris, apesar da fama de ser um piloto causador de acidentes — uma fama justificada, diga-se — também contou com a falta de sorte para conseguir correr tanto sem vencer uma única vez. Uma boa olhada nas estatísticas de sua carreira na F1 deixam isso claro: quando ele não quebrava ou batia, frequentemente pontuava.

Ele disputou 214 corridas, abandonou 148 e pontuou em 22 delas, não se classificou, foi desclassificado ou não largou em 7 delas, o que significa que ele só não pontuou em 37 corridas — das quais ele fez a volta mais rápida em uma e a pole position em outra.

Se há um piloto que merece o título de azarado, este é Andrea de Cesaris.

 

Chris Amon

chris amon pilotos mais azarados da história da f1

A lista não ficaria completa sem Chris Amon, melhor piloto da Fórmula 1 a jamais vencer uma corrida. E isso é um fato. Amon foi convidado pelo próprio Enzo Ferrari para disputar a Fórmula 1, depois do que fez com o Ford GT40 em Le Mans em 1966. E ele foi.

Amon também foi considerado por Mauro Forghieri o melhor piloto com quem o engenheiro italiano trabalhou. E Forghieri trabalhou com Jacky Ickx, John Surtees, Niki Lauda, Gilles Villeneuve e Jody Scheckter. “Ele tinha todas as qualidades para ser campeão, e só não foi por… azar”, disse Forghieri em certa ocasião. 

Chris Amon e Forghieri

A Ferrari foi uma das causas do azar de Amon. Ele chegou justamente quando a Ferrari entrou em seu primeiro grande jejum de títulos, iniciado após a conquista de John Surtees em 1964 e o baque em Le Mans.

Sua primeira temporada na Scuderia foi 1967, quando ele se tornou o principal piloto da equipe por uma série de fatores e terminou em um modesto quinto lugar no campeonato naquele ano.

Ele ainda continuaria na Ferrari mais duas temporadas, mas a falta de um carro competitivo o levou a procurar novos ares em 1970.

Foi quando ele chegou à March.

A temporada foi boa. Apesar dos abandonos nas três primeiras corridas, ele conseguiu dois segundos lugares, um terceiro, e ainda pontuou em mais três corridas, comando 29 pontos.

Mas aquele foi um campeonato conturbado — tanto que o campeão foi Jochen Rindt, que morreu duas etapas antes do final, tornando-se o primeiro campeão póstumo da F1.

Em 1971 Amon foi para a Matra, que nunca conseguiu ser realmente competitiva. Ali ele conquistou seus últimos pontos. Em 1972, ainda com a Matra, ele teve uma de suas maiores chances de vitória: enquanto liderava o GP da França, um pneu furado o obrigou a ir para os boxes, perdendo diversas posições.

Ele ainda conseguiu voltar à pista e escalar até o terceiro lugar após uma série de voltas rápidas, mas sem chance de vitória.

Ao final da temporada Amon saiu da Matra e, a partir de 1973, começou a disputar apenas alguns grandes prêmios. Amon conseguiu chegar na hora errada nas duas grandes equipes pelas quais correu.

Tivesse chegado à Fórmula 1 pela Matra e depois migrado para a Ferrari, sua história poderia ser completamente diferente.

Em apenas 96 corridas disputadas, Amon foi ao pódio 11 vezes, conquistou cinco pole positions, fez a volta mais rápida três vezes e marcou 83 pontos (quando somente os seis primeiros pontuavam).

Por ter sido tão bom e nunca ter vencido uma corrida, Mario Andretti disse que “se Chris Amon fosse agente funerário, as pessoas parariam de morrer”. Esse era o nível do azar do pobre neozelandês.