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História

Paraíso vermelho: as Ferrari e a pista particular de Pierre Bardinon

É o sonho dourado de todo entusiasta. Imagine isso: em 1978, quando a Ferrari 250 GTO era nada mais que um velho carro de corrida já sem serventia, você encontra um deles abandonado e o compra por US$ 700. Gasta mais US$ 1.500 para recolocá-lo em operação, e o usa regularmente por mais 30 anos, até o dia em que você passa desta para uma melhor.

Ferrari 250 GTO: o maior carro esporte da história

O prazer de dirigir uma das 36 Ferrari 250 GTO originais (e não as inúmeras recriações que apareceram desde então) é realmente raro. Largamente considerado por especialistas como sendo o mais sensacional carro esporte já criado, por isso mesmo é cobiçado como um diamante raro: até a recente venda do 300 SLR “Uhlenhaut coupe” pela Mercedes-Benz, as GTO eram os mais caros automóveis da face da terra. Comprar um hoje, se conseguir achar um a venda, vai lhe custar algo perto de 100 milhões de dólares. Talvez mais, dependendo do carro.

Um investimento maravilhoso não? Nada parece mais rentável que isso: gastar 700 dólares para ganhar cem milhões é como ganhar na loteria — impossivelmente raro. Mas como todo “investimento” realmente bom, não foi feito pensando em dinheiro: um entusiasta comprou um carro que gostava, e o manteve até o fim da vida. O lucro ficou, na realidade, com seus filhos. Mas esta, é uma outra história; vamos chegar lá.

 

Assim nasce uma coleção

Todo mundo gosta de se imaginar achando uma rara Ferrari perdida; mas o fato é que para achar-se algo assim, normalmente a pessoa já está no meio; é um colecionador com dinheiro para gastar em carros. Existem carros oferecidos por aí hoje, que ninguém quer comprar; restaurado nunca vai valer o que se gasta neles. É o caso da GTO de 700 dólares. Não estava escondida; apenas não existia mercado para ela.

ITB, no estilo de 1962: seis Webers duplos no V12 de 3 litros e 300cv do 250 GTO

É necessário alguém que compre, e mantenha o carro, por amor mesmo, para que ele possa sobreviver até o dia que, talvez, valha algo. A diferença é apenas que essa gente que “acha” coisas raras normalmente apenas deu valor a algo que, no seu tempo, ninguém dava valor. Eles estão aí para todo mundo ver. É mais uma questão de encarar, não de achar.

A 375 Plus de 1954: vendida em 2014 por 18 milhões de dólares

O francês Pierre Bardinon se apaixonou por Ferraris de corrida nos anos 1950. Na verdade, era um entusiasta dos Bugatti; depois por meio dessa mania começou a se apaixonar pelas 24 horas de Le Mans e seus vencedores, o que o levou aos Jaguar. Tinha vários Bugatti e Jaguar, mas ao ver uma Ferrari 375 Plus vencer a prova em 1954, ficou completamente apaixonado pelas Ferrari. Diria: “Eu gostava de Bugatti, e depois comecei a comprar Jaguar. Mas, em algum momento, pensei que nada era comparável às Ferraris. Compreendi que eram obras de arte e que um dia seu valor necessariamente aumentaria. Vendi todos os meus carros e comecei a comprar Ferrari.

A raríssima 312 P da coleção

E quando ele começou a comprar Ferrari? Na segunda metade dos anos 1960. Isso significa que a maioria dos carros de sua coleção, hoje jóias de valor inestimável, não eram nem carros antigos quando os comprou. Eram carros de corrida do ano passado, e todo mundo sabe que não há nada mais velho que o carro de corrida do ano passado. Eram inúteis, baratos, lixo. Enzo é conhecido por ter picotado vários deles para usar peças, por exemplo. Hoje arrepia a gente, mas é a realidade. Bardinon disse: “Na década de 1960, quando terminavam as corridas, os carros de competição não valiam quase nada.”

A 275 SP da coleção: venceu Le Mans duas vezes.

Olhem como isso acontece. Uma série de fatores aqui: primeiro, ele tinha dinheiro para comprar quantos carros velhos quisesse. Depois, tinha lugar onde guardá-los. Depois, seu particular gosto pelo esporte motor o fez escolher carros que, décadas depois, valeriam fortunas. Ele diz que sabia que iam valer mais no futuro, um sentimento por conhecer o quanto eram sensacionais, mesmo comparados aos Bugatti e Jaguar. Mas não poderia ter certeza. Aquilo tudo poderia continuar valendo nada, sendo lixo, como a tralha que você descobriu no quartinho do seu avô quando ele faleceu. Por mera sorte, competições, não as Ferrari de rua, eram sua paixão; é onde estão hoje as mais valiosas Ferrari.

860 Monza: 4 cilindros e 3,4 litros

O fato é que este tipo de fortuna só acontece com gente que já começou com uma fortuna. E esse foi o caso de Pierre Bardinon, talvez o maior colecionador de Ferrari da história.

 

Os coelhos

Pierre Bardinon era um herdeiro. Mas não um qualquer, que existe apenas para gastar o que as gerações anteriores conquistaram; definitivamente deixou mais do que recebeu neste plano.

Sua família é descendente dos fundadores da Chapal, hoje uma marca de luxo, mas então uma fábrica especializada em couro e pele, especialmente de coelho, com fábricas em Croqc na França, e em Brooklyn, NY, EUA. É famosa por suas jaquetas de aviador de pele de coelho. O pai de Pierre, Jean Bardinon, desapareceu da face da terra em outubro de 1962, sem explicação, o que imediatamente colocou o jovem Pierre Bardinon na direção da empresa.

Anos de expansão se seguiram, com a Chapal vestindo os atletas franceses na olimpíada de 1968, e a criação uma jaqueta esportiva de lazer, batizada de Chapalac, em pele de coelho. Os amigos de Bardinon – Jean-Pierre Beltoise, Henri Pescarolo, François Cevert — foram os embaixadores deste novo modelo.

Pierre e seu Bugatti, nos anos 1950

O pai de Pierre já era um entusiasta do automóvel, que incutiu em seu filho desde cedo o amor por máquinas especiais. O jovem Pierre nos anos 1940 e 1950 andava de Bugatti 35B, o que já demonstrava um gosto para além do usual, de carros novos apenas. Foi com este carro que ele partiu em lua-de-mel com sua esposa Yanne em 1952.

Mas como sabemos, sua paixão por carros de corrida explodiria em seguida. Quando seu pai desapareceu, já tinha uma bela coleção de Ferrari de corrida, mas o que fez em seguida o elevou acima de um colecionador normal. Para exercitar seus carros de corrida, que odiava ver parados, ele construiu uma pista em seu quintal.

Mas du Clos era o nome do castelo da família, construído no século XIV perto de Aubusson, na França. Ele transformou o castelo da família do e os campos adjacentes em seu próprio playground ao fundar um museu de automóveis, e um com uma pista de corrida. Nascia em 1963 o Circuito de Mas du Clos.

O dono não foi o único a dar voltas no circuito, porém. Ele também o disponibilizou para vários clubes e equipes de corrida. Além disso, ele tinha um grupo de seus próprios mecânicos que cuidavam de sua coleção. Chegou a ter 70 Ferrari de competição, e entre elas, 6 das 9 vencedoras de Le Mans.

Disse Bardinon de seu circuito: “Como muitos, trabalho durante a semana na minha profissão, mas gasto meu dinheiro no meu esporte. Para alguns é tênis, para outros polo, talvez, ou iatismo. Meu esporte é o automobilismo. Portanto, era lógico que eu deveria construir esta pista para praticar, assim como outros podem construir quadras de tênis ou uma piscina. Todo ano eu dirijo seriamente aqui por 40 ou 50 horas ” Um pouco de inveja aqui é totalmente normal.

O circuito é um dos mais belos já criados, bem no meio do verde e sem construções comerciais ou outdoors de propaganda; um verdadeiro paraíso particular inacreditável. Em 1963 tinha apenas 400 metros. Dois anos depois, em 1965, houve a homologação do circuito para qualquer competição ou treinamento. Depois de uma versão intermediária de um quilômetro, a pista final de 3.070 metros de comprimento foi concluída no decorrer de 1967.

Em 2008, porém, uma longa batalha com as autoridades a respeito do circuito aconteceu, para colocá-lo dentro das normas atuais de segurança. Pierre Bardinon morreu em 2012 sem ver a solução; hoje as obras estão avançadas para a reforma do circuito, o que significa que sabemos quem ganhou, no fim. I fought the law, and law won.

 

As Ferrari de Pierre Bardinon

É difícil listar todos os carros que passaram por esta coleção. Segundo algumas fontes, o número poderia ser em torno de 500. Talvez 300 deles, Ferrari. Além dos carros, a coleção e o museu contavam com milhares de modelos em escala, e uma gigantesca biblioteca.

Há 44 anos uma celebração foi realizada para marcar o aniversário de sua então já famosa “Coleção Mas du Clos”. Uma data interessante, pois, dá uma ideia do que era a coleção em seu auge. Naquela época, a coleção tinha cerca de 70 carros de corrida da Ferrari, de todas as categorias e idades.

A coleção incluía, por exemplo, uma 375 Plus, vencedora de Le Mans de 1954 que iniciou a paixão de Bardinon pela Ferrari. Contava também com uma 121LM, encontrado abandonado em um galinheiro em Nova Jersey alguns anos antes por um amigo americano. A 860 Monza que venceu as 12 horas de Sebring em 1956. Uma 410 Sport ex-Scuderia Ferrari. Uma Ferrari 335 Sport Scaglietti de 1957 é legal de notar aqui: em 2016 foi leiloado e vendido por nada menos que 30 milhões de Euros.

Os carros protótipo incluíam a 275P que venceu Le Mans em 1963 e 1964. Uma 350 CanAm (na verdade uma 330P4 revisada), uma das duas 312P existentes e uma 312PB. Além disso existiam as 250 GT: uma 250 SWB de competição, e nada menos que DUAS 250 GTO, uma 1962 e uma de 1964. Nas fotos do evento é possível ver também uma berlinetta especial 375MM e uma 410 Sport berlinetta Scaglietti.

A 335S 1957 vendida por 30 milhões de Euros

É simplesmente um paraíso vermelho na terra. No seu auge, reputa-se que algo entre 70 e 100 Ferraris de competição faziam parte da coleção. Entre eles, seis vencedores de Le Mans. A coleção chegou a ter alguns carros modernos também, claro: 512 BBi, 550 Maranello, F40, F50, e Enzo.

Antes de morrer em 2012, Pierre já tinha começado a diminuir a coleção, que chegou a 20 carros em sua morte. Pierre teve três filhos. Uma filha, Anne, a mais velha e dois meninos, Patrick, que cuidou do circuito e foi um excelente piloto de competição no final dos anos 1970 e Jean François, que dirige a empresa de couros Chapal. Anne e Jean-François vivem em Paris, Patrick permaneceu cuidando do circuito e dos carros.

Qualquer amor entre irmãos acabou quando, em 2014, Patrick vendeu uma 250 GTO a um comprador taiwanês por 38 milhões de euros. Patrick dizia que o pai lhe dera o carro, e o documento estava em seu nome, mas o pau comeu de qualquer forma: os outros dois o processaram. Depois de uma longa batalha legal, teve que devolver o dinheiro aos cofres da fundação que cuida do espólio de Pierre.

A maioria dos carros realmente valiosos já foi vendida: os impostos sobre heranças na França de qualquer forma os obrigavam a fazer isso. A coleção hoje é uma sombra do que foi. Hoje, o dono listado do circuito Mas du Clos é o filho de Patrick, Alexandre Bardinon, e parece que será reaberto depois das reformas como uma pista para ser alugada para competição.

Patrick e a “sua” GTO 1964: pivô de crise.

Como sempre acontece nesses casos, certamente a coleção e o circuito nunca mais serão os mesmos; aquele paraíso particular cheio de Ferraris agora muito diferente. Uma fundação, que tornará aquilo tudo uma atração turística apenas. Mas continua o que sempre foi: uma história que tem muito a nos ensinar. Não acham?