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Automobilismo

Tommy Byrne: o melhor rival que Ayrton Senna (e a F1) nunca teve

Quem foi o melhor piloto de Fórmula 1 de todos os tempos? Se você perguntar a um brasileiro, ele dirá Ayrton Senna. Um alemão dirá que foi Schumacher. Os ingleses, dependendo da geração, certamente se dividirão entre Clark e Hamilton. Também, dependendo da geração, a resposta poderá ser Fangio — também usada por quem não quer se comprometer ao escolher Senna ou Schumacher. Algumas pessoas, contudo, em especial os irlandeses, sabem que foi Tommy Byrne.

Não sabe quem é? Pois ele foi um dos primeiros desafetos de Ayrton Senna na Europa, quando ambos corriam pela Van Diemen — Senna na Fórmula Ford 1600 e Byrne na Fórmula Ford 2000. O motivo da desavença entre os dois é que Senna se matava para trazer patrocinadores e fazia a lição de casa, enquanto Byrne corrida de graça em troca de vitórias para a equipe.

Para Senna, era um absurdo que o piloto que não trazia dinheiro fosse tão privilegiado quanto Byrne. A equipe chegou ao ponto de tirar o carro de Senna para entregá-lo a Byrne no Fórmula Ford Festival de 1981 só porque tinha certeza de que Byrne venceria a corrida — e de fato venceu. Foi por esse motivo que Senna pediu para sair da Van Diemen ao final de 1981 e voltou para o Brasil. Ele estava disposto a desistir quando viu que todo o seu esforço havia sido em vão.

Soa pretensioso comparar um desconhecido irlandês a Ayrton Senna? Certamente. Mas na época os dois eram as grandes promessas no automobilismo britânico. Dois pilotos extremamente talentosos e rápidos, porém completamente diferentes fora das pistas. E daí vieram as qualidades e os problemas de Byrne.

 

Tommy Byrne, da Irlanda

Olhando daqui de baixo, a Irlanda parece ter sido sempre um país rico, desenvolvido e com alta qualidade de vida. Mas sua história é um pouco menos ensolarada do que vemos hoje em dia. Nos anos 1960 e 1970, a época em que Tommy Byrne cresceu, a Irlanda era um país em desenvolvimento. A maioria da sua população vivia modestamente e, apesar de um indício de crescimento econômico nos anos 1960, a década seguinte foi muito conturbada para os irlandeses, com instabilidade econômica e social. Nos anos 1980, a Irlanda era chamada de “a doente da Europa”, em referência ao seu atraso sócio-econômico.

Foi nesse contexto que Tommy Byrne nasceu e cresceu. Vindo de família pobre, Byrne jamais poderia imaginar um dia estar em um carro de Fórmula 1. Mas aprendeu a gostar de corridas ainda na adolescência, e trabalhava de graça nos autódromos locais só para estar no ambiente do automobilismo. De quebra, ele podia tirar uma casquinha dos carros, acelerando na pista de vez em quando.

No final dos anos 1970, com ajuda de sua mãe, ele conseguiu um empréstimo bancário dizendo que precisava construir um puxadinho para sua irmã, que estava grávida. A única coisa verdadeira na história era a irmã. O dinheiro comprou um Fórmula Ford 1600 e ele começou a disputar as corridas locais.

Tommy Byrne

Quem viu Tommy Byrne correr, na época, diz que jamais houve um piloto como ele, tão envolvido com o carro, com tanto talento natural para as corridas. Ele não chegou a se tornar campeão irlandês, mas venceu corridas e, quando percebeu que não chegaria a lugar nenhum em seu país, pegou seu carro e foi para a Inglaterra.

 

O começo pra valer

Byrne chegou à Inglaterra em 1980, um ano antes de Ayrton Senna. Lá ele convenceu a Van Diemen a colocá-lo para correr de graça — um feito e tanto, já que o automobilismo de base, ainda mais regional como a F-Ford inglesa, não é exatamente uma mina de ouro e a maioria dos pilotos precisam trazer patrocinadores para correr. Como fez Ayrton Senna. 

Tommy Byrne, contudo, corria de graça porque ganhava corridas. Então a equipe conseguia a exposição dos patrocinadores. Byrne corria, ganhava as corridas, e bancava sua permanência no time. E por saber que seu lugar estaria ameaçado por qualquer piloto com dinheiro no bolso, ele decidiu que não apenas venceria as corridas, mas venceria com folga sempre que possível. E assim ele fez. Não era raro ele vencer as provas com 20 segundos de vantagem — em uma categoria com motores iguais.

Ele era brilhante como piloto e sabia disso. O público sabia disso e as equipes, dirigientes e pilotos sabiam disso. Eddie Jordan o conheceu ainda na Irlanda e confirma que Byrne foi um dos mais rápidos que ele já viu. Martin Brundle, que foi seu rival na Fórmula Ford, diz o mesmo. David Kennedy, que venceu Le Mans três vezes, diz que “nunca houve um piloto tão bom quanto ele sem uma chance na F1 como ele”.

Tommy Byrne, contudo, tinha um defeito. Ele era convencido demais. Não chegava a ser arrogante — é o que os britânicos chamam de “cocky”, que pode ser traduzido como o nosso “se achão”. Ele sabia que era bom e fazia questão de dizer isso o tempo todo. E isso não era bem visto — primeiro por ser inconveniente, depois por ser o oposto do que preza o espírito esportivo.

Tommy Byrne

Mesmo assim, Tommy Byrne fez o que tinha que fazer: venceu as corridas e o campeonato de 1980 da Fórmula Ford 1600. Em 1981 ele foi para a Fórmula Ford 2000 e venceu o campeonato, além de roubar o carro e o protagonismo de Senna no Fórmula Ford Festival no fim da temporada, como já contei mais acima.

Seu desempenho rendeu uma reunião com ninguém menos que Ron Dennis, o mais novo acionista e diretor da McLaren. E foi ali que as coisas começaram a dar errado para Tommy Byrne.

 

O sonho impossível da Fórmula 1

Na reunião a personalidade de Byrne repeliu a empatia de Ron Dennis. Tommy Byrne era um irlandês pobre, com pouca cultura e educação, com uma postura convencida que servia como escudo para sua insegurança. Ele havia sido um pequeno delinquente quando jovem, praticando pequenos furtos e até mesmo cumprindo penalidades legais como serviços comunitários.

Como se envolveu com o automobilismo logo cedo, nunca teve uma profissão formal. Foi mecânico e, depois, piloto. Ganhava corridas, mas não tinha salário. Era um corredor idealista, que corria pela paixão e pelo sonho de ser piloto profissional. Para Tommy Byrne, o dinheiro viria depois que ele convencesse o mundo de que era o melhor piloto que eles já viram. O melhor piloto do mundo.

Na conversa com Ron Dennis, Byrne esperava ganhar dinheiro para correr, mas ouviu do chefão da McLaren que todo o orçamento estava destinado a R&D (pesquisa e desenvolvimento). Tommy Byrne, ao ouvir isso, perguntou o que era R&D e recebeu como resposta um olhar decepcionado de Dennis. Ele tinha certeza de que, a partir daquele momento, Ron Dennis teve a certeza de que ele era um pobre coitado e ignorante.

Decepcionado com a reunião, ele começou a ver a Fórmula 1 se distanciar até o dia em que recebeu um convite da Theodore Racing, que lhe ofereceu um contrato de três anos. Tommy Byrne, ingênuo e deslumbrado, pediu 40.000 libras no primeiro ano, 100.000 no segundo e 500.000 no terceiro. Recebeu como resposta risadas do dono da equipe, Teddy Yip.

Seu salário, no fim das contas, foi 2.000 libras por corrida. Como ele mesmo diz em seu documentário “Crash and Burn”, quando alguém oferece uma chance na Fórmula 1, você a agarra. E ele agarrou. E recebeu um dos piores carros do grid. Pela primeira vez, Tommy Byrne não estava vencendo corridas.

A Fórmula 1 se mostrou muito mais cruel do que ele imaginava. Ninguém conversava com ele. Somente Niki Lauda e Nelson Piquet o cumprimentavam. Keke Rosberg deu um tapa em seu capacete devido a uma manobra na pista. Das quatro corridas que foi contratado para disputar em 1982, ele classificou o carro em duas — algo que, por si, já era uma vitória. Ele pedia alterações no carro e não era atendido e ainda era pressionado por seu chefe, que lembrava dos tempos em que Keke Rosberg e Patrick Tambay terminavam as provas em boas colocações.

Ao final da temporada ele simplesmente rasgou o contrato e decidiu que não voltaria à Theodore. Ele precisava de algo melhor. Ele sabia que para ganhar corridas precisava de um carro vencedor. Um carro como os McLaren.

Tommy Byrne decidiu trilhar seu próprio caminho até a McLaren. A equipe oferecia um teste na Fórmula 1 para o campeão da Fórmula 3 britânica. Então Byrne decidiu que faria de tudo para vencer aquele campeonato.

Ao longo da temporada ele vencera seis corridas, mas seus rivais pelo título encostaram nele devido às corridas em que Tommy Byrne não pôde participar por estar na Fórmula 1. Na etapa de Silverstone, a antepenúltima da temporada, Byrne, Quique Mansilla e Dave Scott tinham chances de conquistar o título ali mesmo e nas últimas voltas os três estavam, respectivamente, em terceiro, segundo e primeiro na corrida.

Byrne inicia uma escalada digna do campeão que era. Pressiona Mansilla por duas voltas até que o argentino errou a freada, travando suas rodas dianteiras, perdendo a posição para Byrne, que entrou na última volta em segundo lugar. Em meia volta ele atacou Scott, ultrapassou o britânico em uma entrada de curva e assumiu a ponta para vencer a corrida, o campeonato e ganhar o teste pela McLaren.

 

O teste pela McLaren

Tommy Byrne queria apagar a má-impressão de Ron Dennis sobre sua personalidade. Ele decidiu que seria impecável no teste, que também seria feito por Thierry Boutsen, Stefan Johansson, Quique Mansilla e Dave Scott. O teste foi gravado e está disponível no YouTube (abaixo), mas a melhor forma de contá-lo é com este trecho de sua autobiografia “Crashed and Byrned”:

Eu estava lá com outros quatro pretendentes: Thierry Boutsen, Stefan Johansson, Quique Mansilla e Dave Scott. Havia saído com um amigo na noite anterior. Pegamos umas garotas e levamos elas ao teste, o que provavelmente criou uma impressão ruim. Quero dizer, a minha parecia uma puta. Ela não era, mas usava muita maquiagem e uma saia que mal cobria sua bunda.

Este era o teste do qual todos falam quando meu nome é mencionado. Todo mundo sabem tudo sobre ele – como eu disse a Ron Dennis que o carro era uma merda, como eu ferrei minha carreira por ser metido demais. Mas eles não sabem nada, porque nada disso é verdade. Ron Dennis sequer estava no teste! O teste foi comandado por Tyler Alexander.

Johansson havia pilotado no dia anterior, quando estava um pouco úmido, então não podemos comparar os tempos. Scott e Mansilla fizeram suas voltas no terceiro dia e Boutsen e eu no segundo. No dia do meu teste, Boutsen foi primeiro. Ele fez umas quinze voltas, voltou e reclamou de sub-esterço. Ele pegou um novo jogo de pneus, voltou à pista e fez em 1:10.9. Tudo de modo muito profissional.

Os mecânicos da McLaren começaram a instalar meus pedais, que eu havia feito quando visitei a fábrica da McLaren na semana anterior. Eles nos deram nossos próprios pedais, cada um com nossos nomes gravados. Quando fazíamos nossas voltas, eles colocavam o nome na lateral do carro. Havia muita atenção aos detalhes.

Enquanto isso eu estava um pouco nervoso. Senti muita ansiedade nesse teste. Era a única oortunidade para reparar o estrago que havia feito antes em minha relação com Ron Dennis. Mas ali estava Boutsen reclamando de sub-esterço, e ele era um cara que eu respeitava.

Assim que entrei no carro, minhas preocupações se foram completamente. Sim, havia algum sub-esterço, mas tudo o que fiz foi frear um pouco antes, virar um pouco antes e antecipar a aceleração. O resultado: nenhum sub-esterço. O carro era incrivelmente bom. Eu estava fazendo curvas em quarta que na Theodore eu faria em terceira e que Boutsen aparentemente fez em terceira também.

Logo depois da segunda volta senti que precisaria subir uma marcha. Estava quase no limite da quarta na Stowe, o que era incrível. Na Theodore eu sequer havia levado a terceira ao limite.

Assim que peguei os pneus antigos, fui tão rápido quanto Boutsen com seus pneus novos! Depois eles instalaram meu novo jogo. Aí sim eu fiquei empolgado! Eu estava quatro segundos por volta mais rápido que na Theodor. Subtraia quatro segundos das voltas da Theodore nos GP e eu estaria na frente de todos. Deram minhas três últimas voltas como 1:10.01, 1:10.01 e 1:10.01.

Meu amigo Joey Greenan estava lá, cronometrando por conta própria, e ele estava convencido de que minhas duas últimas voltas foram ainda mais rápidas, mas por alguma razão não me mostraram os tempos. Joey cronometrou 1:09.6 em minha última volta com pneus de corrida, não de classificação.

Para mim, isso era a simples confirmação do que eu suspeitava há tempos. Pilotando um carro de F1, não era mais difícil ser tão competitivo como em um bom FF1600 de um carro de F3. Se eu entrasse em um bom carro, independentemente da categoria, seria bom o bastante para vencer. Este teste apenas confirmou isso.

Se eu tivesse minha estreia em GP com um McLaren ou um Williams, poderia estar em condições de ganhar imediatamente. Não há mistério. Vinte e cinco anos atrás eu era o melhor piloto lá. As pessoas ficaram impressionadas com os tempos que eu fiz na McLaren, mas eu não estava. Era normal, foi o registro de tudo o que eu faria se tivesse um carro competitivo.

Eu disse à equipe algo depreciativo sobre o carro? Claro que não. Era um carro fantástico. Eu devo ter dito algo como “sim, há um leve sub-esterço em curvas de baixa mas se conseguirmos corrigir isso eu poderei ir mais rápido”, apenas como feedback. Eles me agradeceram pelo teste e fui para casa.

Tommy Byrne foi para casa e esperou o telefone tocar. Ele nunca tocou. Byrne jamais foi chamado novamente para a Fórmula 1. Em 1983, ele tentou disputar a Fórmula 3 para se manter no circuito, ser visto e continuar seu sonho. Eddie Jordan o colocou na categoria, mas àquela altura ele já não era mais o mesmo. Byrne tinha quase tudo o que um piloto precisa ter para prosperar no automobilismo de ponta. Seu talento era inegável. O que o impediu de ser um dos maiores pilotos da história, ironicamente, foi algo que não tem nada a ver com o esporte em si. Ao menos não diretamente.

 

A vida fora das pistas

Se você acompanhou com atenção essa história até aqui, percebeu que Tommy Byrne não ganhava dinheiro para correr. Ele trocava o assento por vitórias. Fora das pistas… bem, ele dependia de favores. Lembre-se: Byrne era um cara pobre que só sabia pilotar e consertar motores.

Sua carreira foi financiada por “trocados dos bolsos dos amigos” e por favores. Os amigos gostavam dele, o convidavam para festas e ele ia, pois poderia beber e comer e arranjar umas garotas e um lugar para dormir. Era o jeito de se bancar. Esse estilo de vida indisciplinado e desregrado foi percebido por Ron Dennis. E era o estilo de vida que Ayrton Senna não tinha — Senna basicamente terminou seu casamento para poder correr na F1, como sabemos.

Uma noitada pré-corrida de Tommy Byrne

Byrne era como aquele craque peladeiro que não gosta de treinar, apesar de fazer gols e decidir o campeonato. Funciona até quando? Até o dia em que deixa de funcionar.

E para Byrne isso deixou de funcionar logo, porque a indisciplina foi somada à sua fraqueza emocional devido à sua origem humilde. Ele sentiu fortemente a rejeição — o que é compreensível. Afinal, imagine como deve ser ouvir a vida toda que você tem de ser bom no que faz e, quando você se torna um dos melhores naquilo e está na expectativa de finalmente ser recompensado por isso, você chega lá no topo e alguém te diz que não era bem assim e que não há espaço no topo. O destino é a queda, inevitavelmente.

Ron Dennis, há alguns anos, chegou a se pronunciar sobre Byrne em uma entrevista. Sua resposta confirma essa impressão de que Tommy Byrne era indisciplinado demais para ser um piloto de F1:

O bom e velho Tommy Byrne. Que personalidade e que talento! Acho que a maioria das pessoas que viram esse cara correr concorda que ele tinha tudo, em termos de controle do carro, para chegar ao topo. Mas talvez ele precisasse de outros ingredientes indispensáveis, como uma ferrenha determinação, foco e ambição.

Como resultado, a carreira de Tommy deve ser vista como um fracasso – se ficarmos no contexto de sua considerável habilidade natural. Ele venceu o campeonato britânico de F3 muito bem em 1982 e fez os testes para a McLaren no final daquele ano.

Ele era veloz – e seu talento inquestionável casava com os requisitos para ser um piloto de ponta, ele poderia ter sido um grande piloto e eu ficaria orgulhoso se tivesse sido pela McLaren. Infelizmente, não era para ser.

Há quem diga que Tommy Byrne também foi sabotado no teste. Seu tempo, na McLaren foi superior ao dos quatro pretendentes que fizeram os testes naquele dia e também mais rápido que o de Niki Lauda e John Watson, os dois pilotos titulares da equipe.

Sobre a suposta sabotagem, o próprio Byrne conta em sua autobiografia:

Há cerca de seis anos eu estava no pitlane no Road America quando um cara me parou. Eu o reconheci de algum lugar. Ele disse “Olá, Tommy, como você está e o que você tem feito todos esses anos?”

— “Ah, apenas dando aulas e treinos”, eu disse.
— “É, você foi tão rápido naquele dia em que testou a McLaren, e você nem estava com o melhor carro.”
— “O que você está falando?”, perguntei. Eu tinha o mesmo carro que Boutsen, que havia acabado de sair dele.
—  “Sim”, ele disse, “mas quando eu estava trocando seus pedais, me mandaram não te dar aceleração total.”

Isso me deixou pensando: será verdade? Isso explica por que comecei usando a quarta marcha, em vez da terceira – e é provavelmente por isso que eu estava quase no limite na Stowe, por isso que o carro se aproximava da curva tão devagar.

Mas tenho certeza que a McLaren nunca havia feito algo como aquilo – ou haviam me dado os tempos errados. Eles são profissionais demais. E por que alguém daria bola para Tommy Byrne? Eu preferiria não ter encontrado Tony Vandunger naquele dia, porque lembrei de todo aquele teste e minhas sensações sobre ele reacenderam.

Então vamos perguntar ao próprio Vandunger o que ele lembra daquele dia. ‘Bem, foi há muito tempo! Mas sim, minha lembrança é de que fomos instruídos para dar a Tommy menos que aceleração total – e somente a Tommy, não aos outros. Por que isso? Honestamente não acredito que tenha sido para ferrar Tommy, mas para proteger ele e o carro.

Lembro de ter falado com ele no GP da Áustria, quando estava pilotando a Theodore, e parecia como se estivesse em um teste da McLaren. Ele era bem convencido, totalmente confiante sobre ir para a McLaren. E no teste foi igual. Acho que havia uma sensação, provavelmente de Tyler Alexander, de que aquela confiança o deixaria mais propenso a bater o carro. Não era um carro de exibição, mas sim um carro usado nas corridas, e destruí-lo não seria nada bom.

Sentimos que os outros caras não eram tão agressivos, mas com Tommy ficamos preocupados principalmente por ele andar depois de Boutsen, pois teria um tempo para baixar, então mexemos um pouco no carro. Você só precisa ajustar o curso do acelerador avançando o batente do pedal. Depois você olha pelas cornetas do motor, as borboletas não estão totalmente abertas. Leva apenas uns poucos segundos. Ele foi muito rápido apesar disso, e nós rimos muito imaginando como seria sem a ‘sabotagem”.

[…]

Tommy era um daqueles pilotos superconfiantes e agressivos que vão para a pista e dão tudo de si. Depois há a questão dos tempos de volta. Os 1:10.01 que mostraram no painel foi super impressionante. Mas duas testemunhas que estavam assistindo tudo de perto, Joey Greenan e John Uprichard, dois irlandeses que foram assistir o teste de Tommy, estão certos de que ele estava virando mais rápido que aquilo. “John estava trabalhando para a Van Diemen e fomos até lá com o caminhão da fábrica”, diz Greenan.

‘John estava apenas cronometrando Tommy com seu relógio de pulso, e os tempos pareciam não bater com o que estavam colocando no painel. Então ele me enviou de volta ao caminhão para pegar o cronômetro. Comecei a cronometrá-lo e ele estava cerca de um segundo mais rápido do que estavam mostrando. Perguntei para a equipe por que eles não estavam mostrando os tempos corretos. No fim ele estava em 1:09. Suas três últimas voltas foram 1:09.9, 1:09.7 e 1:09.6.’

Mesmo se pegarmos os tempos oficiais, isto foi o mais rápido que o McLaren MP4/1 – de efeito solo – já andou em Silverstone, com uma margem substancial. O ar fresco do outono teria contribuído para tempos mais baixos que o ar quente da metade da temporada, no verão de julho. O motor aspiraria mais oxigênio, talvez a equipe tenha instalado relações maiores de marcha no carro para proteger o motor durante o teste e, consequentemente fez o ajuste perfeito para melhorar o desempenho do motor, o que ajudaria a explicar os tempos.

Mas o que não ajuda é o fato de ele não ter tido abertura total da borboleta. Apesar disso, como diz Watson, não importa como você tenta explicar, ou qual versão dos acontecimentos você conhece, ainda é uma performance sensacional.

‘Sim. Tommy foi sensacional naquele dia’, diz Greenan. ‘Mas repito: não foi nada além do que eu esperava. Thierry Boutsen era um bom piloto, mas ele não era Tommy Byrne. Em termos de talento Tommy era um Ayrton Senna. Se Ron Dennis tivesse contratado-o, eu não tenho dúvidas de que ele seria várias vezes campeão.’

O que aconteceu realmente naquele dia nós nunca saberemos. A história de Tommy Byrne tem elementos dramáticos demais para ser contada de forma completamente verdadeira, sem ser influenciada pelos sentimentos de injustiça, pela superestimação dos amigos, pelo desdém dos desafetos e pelo próprio amadurecimento e aceitação de Byrne, hoje com 64 anos.

 

A vida após a quase-Fórmula 1

Depois de se recuperar do choque de realidade Byrne foi para os EUA e disputou as categorias de acesso da Fórmula Indy. Lá ele finalmente começou a ganhar dinheiro como piloto profissional, mas nunca conseguiu ingressar na Indy. Ele tentou por quatro anos seguidos vencer o campeonato da Indy Lights. Foi sétimo em seu primeiro ano, 1986, terceiro em 1987, vice-campeão em 1988 e encontrou forças para tentar mais uma vez em 1989.

Por que encontrou forças? Porque, lembre-se: Tommy Byrne tinha seus pontos fracos emocionais. Àquela altura todos os pilotos com quem ele disputou nas categorias de base europeias já estavam fazendo dinheiro e com carreiras consolidadas. Ele se viu como o único que não chegou lá. Justamente o mais rápido e talentoso de todos.

Em 1990 ele disputou a categoria de acesso da Indy e chegou à última prova com chances de ser campeão novamente, mas foi atingido por um retardatário que rodou bem à frente de seu carro e, sem ter para onde desviar, acabou batendo e abandonando a prova. Terminou o campeonato em segundo lugar mais uma vez.

Abalado, ele jamais repetiu seu desempenho na Indy Lights. Começou a beber e a fumar maconha com a regularidade que ele deveria ter para treinar e praticar o esporte. Terminou as temporadas de 1990, 1991 e 1992 em 13º, 12º e 10º lugar, respectivamente. E então ele chegou ao fundo do poço.

Sem ter onde correr na Indy, Byrne encontrou uma forma de fazer dinheiro e vencer corridas no automobilismo mexicano, um país sem muita tradição nas pistas. Mas havia dinheiro envolvido, e muito dinheiro.

De onde vinha o dinheiro, Tommy Byrne nunca quis saber. Mas sua incursão no México terminou quando foi à casa de um dos patrocinadores do time e foi recebido por um monte de prostitutas nuas descendo as escadas desesperadas, enquanto o patrocinador, igualmente nu, surgiu no alto da escada com uma arma, atirando na direção de Byrne. Dois dias depois, o chefe da equipe informou Byrne que o tal patrocinador havia morrido afogado em sua piscina.

Byrne então voltou aos EUA arruinado e começou a fazer pequenos trabalhos braçais até que foi convidado por seus amigos americanos para ser instrutor de pilotagem na academia da Honda/Acura em Mid-Ohio e, ocasionalmente, pilota carros clássicos de Fórmula 1 em eventos na Europa.