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Mercado e Indústria

Qual o futuro da Ford no Brasil?

Há quase um ano e meio, quando a Ford anunciou o fim do Fiesta e de seus caminhões no Brasil, fiz uma reflexão sobre os equívocos em série que a fabricante cometeu no Brasil em uma tentativa e entender como ela chegou à sua atual situação. Você pode ler o texto neste link, mas em resumo, ela nunca pareceu preocupada em oferecer um produto melhor que o dos rivais e, quando fez isso, não se preocupou em dar continuidade a ele.

Dois casos são emblemáticos: o Del Rey e a Courier. O primeiro, nunca passou de um Corcel “hardtop”, curto demais, simples demais, fraco demais e antigo demais para enfrentar os modernos Santana e Monza. O segundo, chegou a liderar o segmento, mas quando seu irmão de plataforma, o Ka de segunda geração, deixou de ser produzido em 2013, a picape foi junto embora sem deixar uma substituta. Ou seja: a Ford simplesmente abandonou o jogo que estava ganhando para não arriscar demais com uma eventual sucessora.

Foi uma decisão estratégica? Certamente. Mas considerando a situação atual da marca, não foi a decisão mais inteligente: a Ford é a única das “quatro grandes” a não ter uma picape compacta. Aliás, a inclusão da Ford nas “quatro grandes” já está desatualizada, porque em 2019 a Renault foi a quarta marca mais vendida no Brasil, colocando a Ford como a quinta fabricante brasileira — e por pouco, pois ela vendeu apenas 2.846 unidades a mais que a Toyota. Sem o Fiesta e o Fusion na conta de 2020 e com os deslizes do Ka nos últimos meses, é bem provável que ela acabe ultrapassada também pelos japoneses, passando a ser apenas a sexta marca mais vendida no Brasil.

Evidentemente a Ford não pretende ficar parada vendo sua participação no mercado afundar enquanto todas as outras fabricantes prosperam. A estratégia é semelhante à americana: concentrar seus esforços nos segmentos mais quentes do mercado brasileiro: os hatches compactos e os crossovers/SUV. É uma estratégia ousada, de certa forma, porque rompe com o passado e aposta em segmentos nos quais a Ford nunca se aventurou e que já são disputados por rivais consolidados — ou rivais que superaram a Ford, no caso do EcoSport. Também por isso, ela me deixa um tanto cético quanto à sua eficácia.

A ideia de concentrar sua atuação nos segmentos mais interessantes do mercado é, acima de tudo, lógica. Só há duas formas de atuar no mercado atendendo a demanda: vendendo o que todos vendem ou vendendo o que ninguém vende. Então é lógico que a Ford atue somente nos segmentos mais disputados. Só que isso exige um produto diferenciado. E o primeiro produto que a Ford irá oferecer neste segmento tão disputado é o Territory.

Mas o Territory tem um problema fundamental: ele é um modelo chinês, com mecânica diferente de todos os outros Ford — será equipado com um motor 1.5 turbo de quatro cilindros e ciclo Miller, de origem Mitsubishi, mas licenciado para sua parceira chinesa. O carro é bonito e bem equipado, mas irá encarar rivais como o Jeep Compass, que está prestes a ganhar um motor turbo e, afinal, tem o valor agregado da marca Jeep, e também o Volkswagen Tiguan, também equipado com um motor turbo e já consolidado no mercado desde sua primeira geração.

Mas o principal questionamento sobre o Territory é: ele vem para ficar ou será um tampão para que a Ford tenha algo a oferecer além do EcoSport e do Ka enquanto os novos modelos não chegam?

Isso, porque a Ford pretende lançar outros cinco SUV/crossovers nos próximos três anos. Um deles será a nova geração do EcoSport, prevista para o fim de 2021. Depois haverá outros dois modelos intermediários, por ora identificados com os códigos BX784 e BX785, desenvolvidos no Brasil e voltados ao mercado sul-americano, previstos para 2022. Além deles, teremos o Bronco Sport e o Escape Hybrid. É, certamente, uma gama completa, mas onde o Territory se encaixa nessa linha?

Painel do Territory

Supondo que o EcoSport seja mantido onde está, apenas atualizado para enfrentar o Volkswagen Nivus e o Chevrolet Tracker, isso o colocaria em uma faixa de preços de R$ 80.000 a R$ 110.000 — a mesma em que se encontra atualmente. O Bronco Sport, segundo apuração do pessoal das revistas Quatro Rodas e Autoesporte, será posicionado na faixa dos R$ 160.000, enquanto o Escape Hybrid, naturalmente, será o modelo de topo, posicionado na faixa dos R$ 200.000, rivalizando com o Toyota RAV4 Hybrid.

Com isso, restam apenas duas posições para os crossovers desenvolvidos no Brasil: abaixo do EcoSport ou acima dele. Como eles são modelos com porte maior que o EcoSport (de acordo com os flagras já divulgados no Brasil) é certo que eles serão posicionados entre o EcoSport e o Bronco Sport, na faixa entre R$ 120.000 e R$ 150.000, competindo com as versões de topo do Volkswagen T-Cross e com o Volkswagen Tarek.

Nesse caso, onde ficaria o Territory? Como a Ford irá espremer cinco crossovers entre os R$ 120.000 e R$ 200.000? Ainda que a futura dupla de crossovers seja improvavelmente posicionada no lugar do EcoSport como o Nivus e o T-Cross, o EcoSport teria que ser promovido para a faixa dos R$ 120.000, o que mantém o dilema do Territory.

Dos novos modelos da Ford, todos têm grande potencial de ajudá-la a se reencontrar no mercado brasileiro, especialmente o Bronco Sport, que tem um visual mais arrojado, que o torna bem atraente para quem gostaria de um Land Rover Evoque ou um Land Rover Defender, mas não quer depender da rede de concessionárias reduzida, nem pode desembolsar os mais de R$ 280.000 pelo SUV britânico. Ele deverá ser equipado com a versão turbo do 1.5 Dragon do EcoSport, que já é usado no Ford Escape, com 182 cv e soa promissor caso consiga chegar na faixa dos R$ 160.000 a R$ 180.000 — ainda que fique perigosamente próximo do Tiguan 350 TSI.

Ford Bronco Sport

O mesmo vale para os BX784 e BX785, gêmeos que serão diferenciados apenas pela carroceria — o 785 será um “cupê”, de forma semelhante a Nivus e T-Cross. Se forem posicionados no segmento do Compass, a variedade de carrocerias e o provável motor turbo 1.5 irão torná-los uma opção muito forte, especialmente porque neste segmento a Volkswagen irá deixar de oferecer o vantajoso Tiguan Allspace 250 TSI para trazer o simplificado Tarek, mais curto e menos refinado por ser voltado aos mercados “em desenvolvimento”.

Não será barato, mas será um Ford feliz

A Ford ainda parece estar prestes a trazer de volta a Courier. A picape, desta vez, será uma resposta à Fiat Toro, baseada na plataforma do Escape e, dizem os rumores, produzida no México, de onde seria importada. Este, aliás, é um ponto fraco desta estratégia: a Fiat Toro é uma picape de grande volume de vendas, constantemente figurando entre os dez ou quinze modelos mais vendidos. Um modelo importado, ainda que isento do imposto de importação, teria seu preço muito mais influenciado pela variação cambial do que as rivais que terá no Brasil — além da Fiat, também veremos a Volkswagen Tarok em breve.

Em termos gerais a estratégia da Ford parece inteligente e promissora, mas ainda intriga a situação do Territory. Além da questão do posicionamento do modelo, também há um desencontro de informações sobre sua produção: alguns veículos de imprensa brasileiros afirmam que o modelo será produzido na Argentina, pois a fábrica de General Pacheco ficou ociosa por produzir apenas a Ranger. Já os argentinos, apuraram com os dirigentes locais da Ford que o modelo será produzido apenas na China devido ao custo de produção reduzido.

Caso a versão dos argentinos se confirme, tudo aponta para um “mandato tampão” do Territory, que será vendido em 2020, 2021 e 2022 enquanto os modelos locais não ficam prontos — algo que poderia minar a confiança nos modelos Ford devido ao risco de desvalorização, especialmente se seu motor 1.5 turbo não migrar para outros modelos, o que é muito provável devido à origem Mitsubishi e à produção chinesa. Não parece a melhor forma de começar uma renovação, não é mesmo?