FlatOut!
Image default
Car Culture

Quando as fabricantes de carros trocam farpas (e elogios)


Oportunamente, neste fim de semana a Renault divulgou nas redes sociais uma pequena homenagem ao Ford EcoSport. Quando a Ford anunciou o encerramento de sua produção nacional, em janeiro, a fabricação do EcoSport em Camaçari (BA) foi interrompida imediatamente – até ficaram algumas unidades inacabadas na linha de produção. Quando acabarem as unidades dos estoques, o criador do segmento dos SUVs compactos no Brasil será parte do passado.

Nestes tempos incertos, é bacana ver uma manifestação de camaradagem entre duas rivais – ainda que, em última instância, o objetivo seja publicidade (o que não é de forma alguma condenável, vale frisar). Até porque o Duster foi o primeiro rival direto do EcoSport no Brasil, mesmo chegando só em 2011, oito anos depois do Ford. E mesmo que o segmento tenha evoluído demais nestes últimos dez anos, como EcoSport e Duster ofuscados por opções mais modernas, como Chevrolet Tracker e Jeep Renegade.

Mas a Renault é dada a interações mais informais com as rivais há tempos. Em 2016, na época do lançamento da bem sucedida Fiat Toro, a Renault provocou a concorrente ítalo-mineira da mesma forma: pela Internet, com uma foto, e sem mencionar nomes: apenas colocou a foto de uma Duster Oroch carregando um touro na caçamba e a frase “Não adianta bufar. A Duster Oroch chegou na frente”.

De fato, a picape monobloco da Renault chegou meses antes da Fiat Toro, em setembro de 2015. Mas a Toro foi quem se tornou um fenômeno de vendas ao melhorar a receita com acabamento mais refinado, tração 4×4 e motor turbodiesel nas versões mais caras.

Pouco depois, em 2017, a Renault apresentava o Kwid, seu atual modelo de entrada – que era chamado de “o SUV dos compactos”. Em sua campanha de lançamento, a Renault cutucava o Volkswagen Up, dizendo que o Kwid se saía melhor passando sobre lombadas e também no espaço para os ocupantes do banco traseiro. Curiosamente, nas imagens do interior do carro, os personagens do comercial estavam dentro de um Mobi – talvez porque o menor dos Fiat fosse visivelmente mais apertado.

A Volkswagen devolveu a provocação com uma vídeo no qual o humorista Rafinha Bastos mostrava que, mesmo com dois metros de altura, cabia no Up sem problemas. E ele também passou por lombadas com mais quatro amigos dentro do VW para mostrar que ele não era baixo demais.

No fim das contas, uma parcela significativa do público voltou-se contra a Renault ao perceber que, apesar de ser competente no que se propõe, o Kwid passa longe de ser um “SUV dos compactos.”

A Nissan, parceira da Renault já há mais de duas décadas, também teve sua fase rebelde na publicidade brasileira – talvez até mais que a colega francesa. Em fevereiro 2011, quando o Ford Focus de segunda geração ainda era vendido, a Nissan decidiu cutucar a Ford com um vídeo bem humorado. Nele, a Nissan insinuava que o Focus com motor 1.6 era mais caro que o Nissan Tiida 1.8 porque a Ford precisava bancar pelas extravagâncias de seus funcionários.

Não muito tempo depois, em agosto de 2011, estreou a famosa campanha dos “pôneis malditos” para a Nissan Frontier, que colocava os cavalinhos coloridos sob o capô das rivais para exaltar o fato de que, com 172 cv, a Frontier era a picape média mais potente do Brasil.

Embora fossem extremamente irritantes, os pôneis malditos cumpriram seu papel, em 2015, ainda estavam entre os comerciais mais lembrados pelo público. Até porque, logo após a estreia, a campanha foi investigada pelo Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) por associar os pôneis, personagens de apelo infantil, à palavra “maldito”. O processo acabou arquivado pelo Conar após votação unânime em setembro de 2011 – e a Nissan colheu os frutos, com um aumento de 81% nas vendas em relação ao mesmo período do ano anterior.

Em 2010, aliás, a Nissan já tinha provocado as rivais com a música “Agroboys”, que falava sobre como as outras picapes não tinham a mesma vocação para o trabalho pesado que a Frontier. O nome da dupla? “Railuque e Maloque”, não deixando dúvidas sobre os alvos da brincadeira.

E não parou por aí: em 2012, quando foi lançado no Brasil o Nissan March, um personagem inspirado no Sr. Cabeça de Batata de Toy Story posava como um “carro velho”, e os engenheiros responsáveis por ele apenas trocavam a boca e o bigode para transformá-lo em um “carro novo”. De fato o segmento dos compactos estava carente de renovações naquela época: Volkswagen ainda tinha Gol e Fox, a Fiat havia lançado o Novo Uno havia pouco tempo (que ainda era vendido ao lado do Palio Fire), o Ford Fiesta ainda era o mesmo desde 2003 e a Chevrolet ainda estava com o Celta e o Classic no portfólio.

O Nissan March, por outro lado, era um “carro novo de verdade”, dizia a propaganda. Ironicamente, o March foi reestilizado em 2014 e não mudou mais até setembro de 2020, quando saiu de linha depois de oito anos no mercado brasileiro. E mais: o modelo ainda sobrevive em outros mercados e ganhará outra reestilização em 2021, a fim de tentar ganhar mais alguns anos.

Outras fabricantes nacionais também tiveram sua parcela de homenagens e provocações às rivais, e há bastante tempo. Em 1990 ou 1991 (há discordâncias entre a data exata) a Fiat homenageou o Fusca no lançamento do Uno Mille, chamando o Volkswagen de seu “antecessor” com a música “Unforgettable”, interpretada por Nat King Cole, tocando ao fundo enquanto imagens antigas do Fusca apareciam na tela. Nem parecia um comercial da Fiat.

Décadas mais tarde, em janeiro de 2015, a Fiat decidiu dar aquela cutucada na Volkswagen ao comemorar os números de vendas do Fiat Palio no ano anterior – o hatchback tornou-se o carro mais vendido do Brasil no acumulado com as duas gerações. A provocação ficou para o final do vídeo, ao chamar a conquista de um “golaço”. A referência ao Volkswagen Gol era óbvia.

A Volkswagen respondeu com um comunicado oficial, citando os 27 anos anteriores em que o Gol foi líder de vendas. De todo modo, o reinado do Palio não durou muito: 2015 foi o ano do Chevrolet Onix, que tornou-se líder de vendas (posto que não desocupou até hoje), e o compacto da Fiat não sobreviveu à modernização da concorrência, saindo de cena em 2018.

A própria VW também fez das suas. Em 2001, quando foi lançada a ousada versão 1.0 Turbo 16v, o comercial de lançamento dizia que seu motor era o mais moderno do mercado – e citava o “compressor” do rival Ford Fiesta Supercharger, dizendo que era o mesmo compressor usado nos elétrodomésticos. Com direito a uma figura à la Mr. Bean pilotando uma geladeira!

Um dos últimos embates publicitários no Brasil aconteceu no ano passado, quando Chevrolet e Volkswagen se alfinetaram nas redes sociais depois que, durante a apresentação do novo Tracker, o porta-malas não abriu com os comandos de Hermann Mahke, diretor de marketing da GM Mercosul.

No dia seguinte, a Volkswagen postou no Instagram um vídeo curto demonstrando o porta-malas com abertura automática do Tiguan Allspace funcionando perfeitamente.

A Chevrolet respondeu com outra postagem, na qual mostrava o porta-malas do Tracker, enfim, aberto, e ainda dizia que ele tinha ficado maior que o porta-malas do Volkswagen T-Cross – que, na verdade, é o rival direto do Tracker.

Lá fora, porém, pequenas guerras publicitárias – as chamadas ad wars – são melhor aceitas e, por isso, bem mais comuns. Algumas já viraram tradição, como as “batalhas de outdoors” entre Audi e BMW nos anos 2000.

De tempos em tempos estas cutucadas mútuas se repetem – principalmente na Internet, onde uma boa sacada rende um ou dois dias de exposição (ou talvez um pouco mais, se as fabricantes souberem levar a situação). Como quando a Audi chamou a atenção da BMW para uma figura familiar atrás de uma foto do BMW M4, em 2018.

A BMW respondeu prontamente, dizendo que não era coincidência o fato de o emblema da Audi estar sempre atrás do BMW. “Estamos vendo, geralmente onde costumamos ver… no retrovisor.”

A BMW, aliás, já foi muito boa em dar respostas a propagandas de suas rivais, mesmo quando não foi provocada. Em 1990, um acidente na África do Sul foi aproveitado pela Mercedes-Benz em uma campanha inusutada, porém eficiente. Na ocasião, um homem chamado Christopher White havia sofrido um acidente em Chapman’s Peak Drive, uma famosa estrada nas montanhas da Cidade do Cabo que, por suas curvas acentuadas, também é conhecido como The Bends. O carro era um W123, e a Mercedes-Benz conta que White saiu do acidente com apenas algumas escoriações – o que, evidentemente, era um atestado à boa estrutura do veículo.

A BMW aproveitou a oportunidade para frisar que, caso White estivesse ao volante de um BMW, ele nunca teria sofrido o acidente – pois o Série 7 era capaz de superar as curvas. Em inglês, beat the bends, um trocadilho com beat the Benz.

Em outra provocação à Mercedes, mais recente, a BMW fez uma brincadeira com a aposentadoria de Dieter Zetsche, na época CEO da Mercedes-Benz. Em um vídeo com a marca Mercedes-Benz em destaque inúmeras vezes, um dublê parecidíssimo com Zetsche se despede dos funcionários em seu último dia de empresa, vai para casa no banco traseiro de um Classe S e, ao chegar, finalmente aproveita sua liberdade e sai dirigindo um BMW i8.

Ao final, a BMW agradece a Zetsche por muitos anos de rivalidade e inspiração. Uma ideia elegante, bem executada, divertida e respeitosa. Uma homenagem disfarçada de provocação, ou o oposto.

Os alemães, aliás, não são frios como o estereótipo sobre eles diz. Há vários outros casos de homenagens entre as fabricantes germânicas – quase sempre com uma pincelada de acidez. Como quando a Porsche retornou a Le Mans em 2014, e a Audi deu as boas vindas com alguns borrachões na frente da sede da Porsche em Stuttgart para escrever a frase welcome back (“bem vindo de volta”).

Três anos depois, quando a Audi anunciou que deixaria de correr em Le Mans, a Porsche aproveitou a mesma mensagem para desejar que, um dia, a rival retornasse ao circuito de La Sarthe: come back.

Em 2018, quando a Mercedes-Benz anunciou que deixaria a DTM, foi a vez de a Audi se despedir. Um vídeo emocionante, que foi publicado na Internet e também exibido na última corrida entre as duas equipes – a final da temporada de 2018 em Hockenheimring – relembra as décadas de disputas entre Mercedes e Audi, com agradecimentos, elogios e algumas pequenas piadas. Além disso, durante a corrida, os cinco carros da Audi na pista traziam a mensagem see you! (“até logo!”) com a estrela da Mercedes dentro da letra “O”.

Não podemos deixar de mencionar o clássico comercial “Four Rings” da Audi, que mencionava o design da Alfa Romeo, o conforto dos Mercedes-Benz, a segurança dos Volvo e a esportividade dos BMW enquanto colocava os chaveiros dos carros de cada uma das marcas em uma parede – formando, assim, o emblema da Audi. Simples, elegante e inesquecível.

Este tipo de interação entre as marcas, embora seja geralmente bem recebido pelo público por, de certa forma, humanizá-las, não é muito frequente no Brasil – em parte, porque as fabricantes preferem evitar complicações com as agências reguladoras a colocar em prática uma ideia publicitária ousada e divertida.

ESTE Gol GTS 1.8
PODE SER SEU!

Clique aqui e veja como