FlatOut!
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Pensatas

Querida Renault


Querida Renault;

Queria aproveitar este fim de ano para falar contigo sobre algumas coisas que gostaria que soubesse. Sim, este ano foi difícil para todo mundo, eu sei: atípico, doído, atrapalhado e mais longo que o normal, talvez por causa disso mesmo. Sabemos das dificuldades pessoais de todos, e empresariais também; não foi um ano fácil, definitivamente.

Mas queria aproveitar esta carta para dizer que vocês estão fazendo um bom trabalho. De coração mesmo, sem interesses ou vontades escondidas, queria agradecer a vocês. Acho que ninguém fez isso tão claramente ainda, então pensei em ir adiante e colocar no papel.

E, também, fazer um pedido, se me permitirem. Ainda que não seja hora oportuna para pedir nada, ainda que os tempos bicudos não sejam ideais, queria pedir de qualquer forma, porque acho que é algo bom para você mesmo. Mais até do que para mim. Mas antes, agradecimentos são necessários.

Primeiro, agradeço por se manter produzindo carros aqui, e projetando eles com um olho carinhoso ao mercado local, e não apenas despejando qualquer coisa que vem de fora aqui. Obrigado, por exemplo, pelo Kwid. Não é um carro perfeito, claro, mesmo porque o carro perfeito ainda não apareceu, e nem é um objetivo válido; perfeição é chata demais e dobra as cuecas cuidadosamente antes do sexo. Não, o Kwid não é perfeito, mas é sim uma prova, nestes dias em que mastodontes inutilmente pesados vagam livres pela terra, que ainda é possível ainda fazer carros de tamanho e peso contido. Que, apesar de muito leve, ainda ultrapassam as exigências legais de segurança passiva, e que tem um desempenho decente nos estrelados crash-tests independentes. Um carro que pesa 790 kg em ordem de marcha, hoje, é um feito incrível, e sou muito grato por isso. Precisamos mais disso, mas coisas que provam que quem diz que a criatividade está morta no automóvel está simplesmente errado.

E você se encontra em uma posição importante hoje. Com a decadência da PSA aqui, é você que carrega as deliciosas tradições de independência de pensamento da França para a nossa indústria, e as oferecem em carro zero km. É uma tradição importante e que não pode nem deve morrer; pense nisso sempre que o trabalho parecer duro demais para continuar. Tem gente que se importa, assistindo e torcendo para você. Cantem a marselhesa para se animar se necessário; o carro francês precisa continuar, e a bola está com você.

Fora isso, há a sua própria tradição como marca Renault. Todo mundo tem turbos amansados em seus carros hoje, mas você não, e quer saber? É melhor por causa disso. E não é por falta de conhecimento no assunto, claro: foi você que nos anos 1970 provou que turbocompressores eram possíveis não apenas para ganhar na fórmula 1 e nas 24h de Le Mans, mas também para estar debaixo de capô de carros de rua de todos os tipos. Você sabe fazer isso, mas escolhe não fazê-lo por enquanto; está muito à frente da curva. Se for necessário e o público realmente os pedir, terão eles.

Você é guardião de um legado rico, Renault. De rabo quente a Gordini e Dauphini, do primeiro Hatch moderno e o motor de alumínio em alta produção no 16, de Twingos a Espaces, de Scénic a R5 Turbo. Lembre-se sempre desse legado. E continue a levá-lo adiante.

Mas acima de tudo, obrigado principalmente pelo Sandero R.S. De verdade, obrigado. Num mundo onde a norma são esportivos automáticos, vocês tem um câmbio manual de seis marchas, todas elas empilhadinhas uma na cola da outra como deve ser. Num mundo onde só torque em baixa importa, e turbocompressores pequenos são o normal, vocês nos presenteiam um quatro em linha grande em carro pequeno, que tem torque também, mas que brilha mesmo na longa viagem pelo contagiro até a estratosfera de rotações. Num mundo onde paquidermes entregam apenas grip induzido por massa em pneus gigantes, vocês nos dão grip também, mas com algo a mais: leveza, agilidade, vontade de mudar de direção. Contolabilidade derrapando. Previsibilidade pura. Um maravilhoso pacote de pornografia entusiasta a preços módicos, em um carro plenamente usável no dia a dia, e pagável em suaves prestações mensais sem juros.

Vocês são os únicos neste país a fazer carros realmente para nós, entusiastas, e por isso, agradecemos. O R.S. já é uma lenda e está em nossos corações permanentemente. No track-day de fim de ano do Flatout, ah, Renault, eu queria que você estivesse comigo; para todo lugar que se olhasse, ali estavam os R.S., na pista ou descansando por um momento, seus donos felizes e fazendo piadas, desmontando bancos e acabamentos em busca daqueles segundos a mais. E com a reconfortante certeza de que seu carro, ao fim do dia, os levaria para casa sem problema algum, confiavelmente como qualquer outro flácido sedã turbinho automático com o dono em sono REM.

O Renault Sandero R.S. é a prova que o entusiasmo por automóveis permanece vivo e bem, e que floresce: é onipresente em pistas Brasil afora, o carro básico e suficiente em si mesmo para o entusiasta brasileiro. Obrigado por isso, Renault. Mesmo. A gente sabe bem que o mundo empresarial é cruel, as pessoas dentro das empresas lutam por ganho próprio em detrimento ao da empresa e seus clientes. Mas você permanece firme.

Isto é algo que se pagará no futuro. Esta molecada que tem R.S., ou que tem vontade de ter um, um dia precisará de um carro novo para transporte da família, e provavelmente comprará um Captur ou Duster da vida. Ou uma perua Megane, se algum dia você se animar a trazer ela também. Mas isso nem importa: o que você faz hoje com o R.S. é a semente de seu futuro. Lembre disso. Hoje muita gente não sabe qual será o futuro, mas acredito que o automóvel de uso pessoal não morrerá tão cedo. As notícias de sua morte são, esperamos, exageradas. E vocês estarão em posição privilegiada para colher os frutos disso.

Mas mesmo que isso não aconteça, ainda assim, fazer carros de verdade, de gente que gosta deles para gente que gosta deles ainda é a melhor forma de agir. Se o carro acabar, que acabemos junto com ele, numa linda e gloriosa bola de fogo visível da mesosfera. É assim que heróis de verdade se vão: morrem perseguindo um ideal em que acredita, deixando a vida para virar lenda. Não tenha medo de um futuro sem carro e não trabalhe para ele: não vale a pena. Se o mundo quer isso, que se lasque com isso sozinho; continue fazendo o que sabe fazer bem. E boa.

Eu sei que não devia pedir mais, mas na verdade não consigo dormir sem pensar na oportunidade maravilhosa que você tem, para mim plenamente visível, esperando ser aproveitada. Isto porque, nos anos 1960, quando seus carros eram fabricados aqui sob licença pela Willys, trouxeram para cá um pequeno carro esporte baseado no Dauphini, de carroceria em fibra de vidro, produzido em um prédio separado em São Paulo a pequenos volumes, com versões cupê, conversível e Berlinetta. Este carrinho na França se chamava Alpine A108. Mas aqui recebeu um nome mais legal e representativo: todos os 822 carros produzidos se chamaram “Interlagos”.

Um nome que combinava com ele. Pintado de amarelo com uma faixa verde no meio, se tornou a estrela da equipe Willys de competição, e em Interlagos, o Interlagos se tornou uma lenda para nós, brasileiros, as exóticas Berlinettas de competição de nossos sonhos. Temos poucas lendas automobilísticas, nós, os pobres brasileiros de terceiro mundo. Mas esta certamente é uma delas. Amamos a lembrança deste carro de corrida com um carinho patriótico reservados normalmente ao hino e a bandeira nacional.

E você, minha querida Renault, tem a venda na Europa hoje, um Alpine A110 moderno. Ora, o A110 original dos anos 1960 era uma evolução do A108: para-lamas alargados, detalhes alterados, em uma nova mecânica mais forte. É visualmente o mesmo carro!

Por isso chegamos à oportunidade que se apresenta para você. Tente achar o antigo prédio onde se faziam Interlagos em São Paulo. Se não conseguir, outro qualquer que seja perto serve. Faça dele uma concessionária Alpine no Brasil, a única se for o caso. Afinal de contas, carros especiais fazem peregrinações valerem a pena. Crie uma edição especial do Alpine A110 francês, onde apenas o nome e os logotipos mudam: Alpine Interlagos. Importe para cá, para ser vendido nessa concessionária especial. No lançamento, pinte uma meia dúzia de amarelo com a faixa verde, para saírem nas publicações assim. Venda uma edição limitada de 822 carros, apenas. Deve demorar um ou dois anos para vender todos. E mesmo se sobrar algum, os europeus os compram; talvez até com sobrepreço pela raridade e exclusividade. Chamem o Bird Clemente para o lançamento. Na verdade, todo piloto da época ainda vivo, Emerson incluso. Pense um minuto nisso. Não seria algo lindo?

Não, não é uma operação que dará um lucro gigante, este não é o objetivo. É uma ação de marketing elaborada, que paga seus custos e só. E um presente seu para o entusiasta brasileiro, tão sofrido e abandonado por outras empresas, obcecadas que estão apenas com o vil metal, esquecendo completamente o que faz, porque faz, e para quem faz. Dinheiro é bom, não aceita desaforo, e todos gostamos dele, sim. Mas não é só ele que existe. Se você passa a vida fazendo carros 8h por dia todo dia útil, não quer fazer algo importante e memorável para o mundo dos carros?

E vai que você dá uma sorte e o carro se torna procurado e desejado além das 822 unidades? Eu sei que te dizem que é possível prever o fracasso ou sucesso de um carro no mercado, mas eu digo que até se colocar nas lojas, é tudo chute. Chute baseado em dados e com ciência por trás? Claro! Mas ainda assim, chute! Vai que…

Eu acho que a quantidade de notícia e boa vontade que você vai conseguir com isso, é imensurável. Todos nós que conhecemos como funciona esta indústria percebemos que seria um presente mesmo, não um caça-níquel. Teria ainda mais respeito nosso, além do que já tem. E o respeito de nossos pares não é o único objetivo humano, no fundo?

O Alpine moderno é sensacional a nível mundial como o Sandero R.S. é para o Brasil: uma lufada de ar fresco, focado em uma experiência memorável ao volante, em um mundo obcecado por números apenas. É algo leve, ágil, visceral e mais alegre que um balde de filhotes de labrador. O mundo precisa mais disso, e acredito piamente que pelo menos 822 brasileiros também querem um. Vamos lá, Renault, eu sei que você nos entende, ou não faria um R.S.. Uma oportunidade dessas aparece numa janela limitada de tempo; daqui a pouco ela desaparece, perdida para sempre.

Para mim, não quero nada pela ideia, é sua para usar quando quiser, free of charge. Tá, me dá uma semana com um dos carros antes de todo mundo; prometo fazer ele mais famoso que ele já é, pelo menos dentro do meu limitado campo de influência. Já estaria ótimo. Não posso comprar um, mas ter essas pequenas maravilhas rodando por aqui no Brasil é prêmio mais que suficiente para mim. E como já disse, você colherá frutos: uma boa vontade infinita nossa para com sua marca e seus produtos. Como colocar um preço em fazer o que é certo? Quem não quer fazer o que é certo?

Confio em você, Renault. Vou ficar aqui, ansiosamente esperando notícias suas. Não me decepcione!

Atenciosamente,

Marco Antônio Oliveira

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