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Pensatas

Como os radares ajudaram a piorar os motoristas e o trânsito?

Há exatos dois meses eu fiz uma viagem de 800 km entre São Paulo e Santa Catarina, e notei uma certa anglicização do trânsito brasileiro. Os motoristas agora dirigem apenas pela esquerda e as ultrapassagens precisam ser feitas pela direita.

Às vezes não é nem intencional: você está ali, andando numa boa na direita, mas a esquerda está tão lenta que você acaba ultrapassando a fila inteira. Nem faz sentido frear para esperar todo mundo passar e entrar atrás da fila. Há espaço seguro suficiente entre os carros para que você dê um pulo rápido para a esquerda e volte para a direita depois do caminhão.

Nesses dois meses desde essa viagem mais longa, eu devo ter rodado outros dois ou três mil quilômetros (sim, eu sou o “caminhoneiro” da equipe, lembram?) e comecei a pensar mais analiticamente sobre esse comportamento do novo motorista brasileiro. E a resposta está em algo que o FlatOut já avisou há distantes oito anos, em 3 de fevereiro de 2014.

Naquele dia, eu publiquei uma análise que sugeria o seguinte: o excesso de fiscalização eletrônica estimula outras infrações. Se quiser ler todo o texto, ele está aqui. Mas o resumo da história é que quando o Estado concentra seus esforços de fiscalização em duas ou três infrações (excesso de velocidade, lei seca e licenciamento), o inconsciente coletivo passa a se preocupar somente com elas, porque elas é que são reforçadas diuturnamente. As demais passam a parecer menores. E se são menores, têm menos importância. E se têm menos importância, não é tão grave cometê-las.

O resultado é que temos motociclistas com viseira abaixada, mas lendo whatsapp no trânsito. Motoristas a 30 km/h na “área calma” fazendo selfies sobre trânsito.

Eu gosto de reler estas análises antigas. É o tempo que comprova se eu sou um mero palpiteiro ou se eu levo jeito pra esse negócio de análise. E considerando minha observação prática, a evidência empírica, eu acho que acertei essa análise.

Não somente porque todo mundo já viu alguém dando uma olhada no celular enquanto está parado no semáforo — ou até mesmo é essa pessoa. Mas também por que foi desta hipótese de que o slogan “velocidade mata” e seus radares acabou piorando os motoristas e tornando-os mais perigosos sem querer.

O que eu percebi nesses milhares de quilômetros concentrados em mais ou menos oito semanas: os motoristas têm medo de exceder o limite de velocidade. Seja por achar que já estão no limite e ir além pode ser perigoso — especialmente ao lado de um caminhão bitrem —, seja por achar que a qualquer momento eles podem passar por um radar instalado escondido atrás de uma barreira de proteção e acabar multados só porque tentaram ultrapassar um caminhão sem atrapalhar o resto do mundo. Isso, claro, sem mencionar o motorista que, mesmo dentro dos limites, freia repentinamente ao avistar o radar.

E este é o grande efeito adverso do discurso histérico da “velocidade mata”.

É claro que a velocidade pode matar. Se você estiver dirigindo a 45 km/h no calçadão da Praça da Sé ou no estacionamento do Carrefour ela pode mesmo. Se você decidir dirigir a 140 km/h no caminho para a praia em pleno feriadão de ano novo, ela pode mesmo. Mas, às vezes, a velocidade um pouco acima do limite estabelecido é um recurso de segurança necessário.

É muito mais perigoso você levar 30 segundos para ultrapassar um caminhão à noite do que fazer a ultrapassagem em cinco segundos. O caminhão tem visibilidade limitada. Ele pode precisar fazer um desvio emergencial (porque seu peso limita a capacidade de frenagem rápida) e você está no único lugar que ele tem para fazer isso. É melhor ficar 5 segundos ali do que 30. É uma questão meramente estatística, de probabilidade matemática. E para ficar 5 segundos, você precisa acelerar e terminar a ultrapassagem rapidamente. Uma vez abrindo distância sobre ele, você retorna à velocidade limite e segue viagem.

Mas o que acontece é que as pessoas, na faixa da esquerda, ao perceber que estão próximas do limite, ou já acima dele, simplesmente pisam no freio. Não há obstáculo algum, nem aumento da marcha do veículo que está sendo ultrapassado, mas o cidadão na faixa da esquerda, repentinamente, pisa no freio. Por qual motivo? Só pode ser o medo da velocidade.

Acontece o tempo todo, e quanto mais próximo de áreas urbanas, mais frequente. O motorista sai da cidade infestada de radares, entra na rodovia, e continua com medo de ser multado. Aí ele está na faixa da esquerda, porque não vai ficar atrás de um caminhão pesado, mas tem medo de ser multado e, sem placas, ele fica na dúvida: vou ou não vou? Na dúvida, ele acha melhor não ir. Não vale os R$ 200 que ele terá de pagar se estiver errado.

Só que o resultado é uma fila de motoristas que acabam impacientes atrás dele. E a impaciência é um dos embriões das situações de risco no trânsito. É ela que faz o cara colar na traseira do outro, costurar o trânsito, ultrapassar em local proibido, forçar passagem, rodar no acostamento, mandar o sujeito tomar no cooler etc.

Uma situação muitíssimo comum, e que eu presenciei três vezes nesse trajeto SP-SC, é quando você pede passagem para o motorista à esquerda e ele, em vez de acelerar e concluir a ultrapassagem, freia para entrar atrás do veículo que ele estava ultrapassando. Imagine: você a 120 km/h, pede passagem e o sujeito senta a bota no pedal do meio. Se estiver em uma fileira de carros, a reação em cadeia poderá simplesmente parar o trânsito mais atrás. Se um veículo mais pesado — como um SUV, por exemplo — estiver envolvido, o risco de fatalidade aumenta.

Que tipo de motorista freia ao sair da faixa da esquerda em plena BR-116, com uma fila de carros atrás? O motorista que tem medo de ser multado.

E aí temos a situação que eu propus lá em 2014 e que, infelizmente, se concretizou profeticamente: o motorista está dentro dos limites de velocidade, mas é um engavetamento prestes a acontecer. Basta pegar um cara menos prudente, que cola na traseira para forçar a ultrapassagem e a obra dadaísta está feita.

A formação dos motoristas no Brasil nunca foi das melhores. Nos últimos anos, apesar do aumento do número de horas de treinamento, só piorou. Os congestionamentos das grandes cidades não ajudam: os motoristas experientes tentam recuperar o tempo perdido no caos, os inexperientes não têm habilidade em velocidades mais rápidas que a de um congestionamento. Temos extremos em desequilíbrio, como um filé assado em fogo alto, queimado por fora e cru por dentro. É claramente um conflito.

O problema é que “radares salvam vidas”. E qualquer coisa que seja anexada a “salvam vidas” se torna imediatamente inquestionável. Especialmente se tiver cientificismo envolvido; uns números convenientemente relacionados para dar um aspecto de lógica matemática dá conta de convencer uns convencidos. Quem ousar questionar, é um psicopata prestes a matar alguém no trânsito porque decidiu chegar a 130 km/h para ultrapassar um caminhão a 100 km/h em uma rodovia com limite de 120 km/h.

Agora não adianta reclamar. A ideia de que 130 km/h é perigoso já está consolidada no inconsciente coletivo. As pessoas vão continuar freando na faixa da esquerda e ela continuará sendo mais lenta — seja na BR-116, na Marginal Tietê ou na Linha Vermelha. As boas-intenções estão, lentamente, tornando o trânsito brasileiro mais perigoso e mais agressivo. E todo mundo sabe qual é o lugar que está cheio de boas-intenções.