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Rafhael e seu BMW M3 E46 Conversível | FlatOut Street


O quadro FlatOut Street se dedica aos carros preparados e customizados estrangeiros e nacionais, de todas as épocas e estilos.
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Vamos ter que esperar a avaliação do Juliano Barata em breve para ter certeza, mas parece que as notícias sobre o recém-chegado ao Brasil BMW M3 G80 são boas: o carro, apesar de enorme, automático, pesado e turbo, é delicioso de andar. O motor tem uma boa faixa útil de uso, e o carro parece ser bem melhor que o recém-finado F80. Uma dica: pense que é uma M5 com o nome M3 que tudo ficará melhor; é maior que uma série 5 E39, e maior que o primeiro série 7…

Mas o mais engraçado do lançamento deste carro é a quantidade de avaliações que foram feitas lá fora comparando-o ao M3 E46. Este carro, já com vinte anos de idade, é considerado por muitos o ápice do M3. Outros vão mais além: o melhor M-car da história. Concorde ou não, o fato é que, mesmo vinte anos depois, muita gente ainda lembra do M3 E46 com carinho, mesmo depois de andar neste colosso tecnológico que é o novo M3. Os motivos para isso são muitos, e fáceis de se ver.

Primeiro, o M3 E46, mesmo sendo lançado a coisa de vinte anos, já era um carro moderno na forma que anda e se comporta. É espaçoso, grande, e com pneus modernos, grandes e de perfil baixo. Roda firme, impassível, mas sem desconforto extremo: sua suspensão, sem dúvidas graças ao uso de PU microcelular como batentes/molas auxiliares (e a geometria independente nas quatro rodas herdada do E36), dá um binômio conforto/controle incrível. Dentro, se está isolado do exterior e protegido dele como em um carro moderno, feito também para te proteger em acidentes. Pesa mais de uma tonelada e meia, e portanto leve não é. Apenas a falta de telas sensíveis ao toque no interior o coloca em 2000, e não em 2021.

 

Mas apesar de toda esta modernidade, o M3 E46 não parece ter nenhuma sequela, daquelas que achamos normal deste tipo de carro. É pesado, sim, mas se move com agilidade e desenvoltura. É isolado do exterior, sim, mas não completamente: existe a direção, ainda com assistência hidráulica, numa época em que a BMW era a melhor do mundo nelas. A direção é precisa e comunicativa de uma forma que não acontece mais hoje. Depois, o jeito como o chassi se comunica com a gente. Poucos carros são tão controláveis e benignos em seu comportamento, mas ao mesmo tempo divertidos e alegres: é muito fácil controla-lo em powerslides épicos, fazendo você parecer um piloto muito mais hábil do que realmente é. O acelerador na verdade é um verdadeiro reostato que controla precisamente o quanto você deseja que a traseira se espalhe. Um carro realmente viciante nisso.

E o motor? Debaixo do capô está a versão mais evoluída do motor que fez a fama da BMW moderna: o seis em linha aspirado de alta potência específica. Um 3,2 litros (87 x 85.8 mm) que girava até 8000rpm e dava quase 350cv (343 para ser exato), ao mesmo tempo que despejava um berro sofisticado e audível simplesmente maravilhoso. O berro é como seda fina japonesa sendo rasgada, um grito lendário do Banshee celta tornado motor de combustão interna. Não é alto; é belo, audível e positivamente entusiasmante. O berro só já vale o carro inteiro; que diferença da flatulência exagerada dos turbos modernos.

Mas não é só o berro que nos deixa bobos aqui. Este motor é elástico, forte desde lá de baixo até o corte a 8000rpm, o que deixa uma faixa imensa útil de rotações para brincar. Embora se perceba um crescendo mais forte começar aos 3000rpm, não significa que é fraco abaixo disso: 80% do torque máximo está disponível desde 2000rpm. É simplesmente delicioso, um daqueles motores que puxa bem a qualquer momento, rotação ou marcha, mas ainda assim sobe e desce de giro feito uma superbike japonesa insana. Poucos motores, em toda a história do automóvel, são tão satisfatórios, e em tantos níveis diferentes.

E este incrível motor pode ser apreciado em cada minúcia, pois não há conversor de torque ou computador pensante entre ele e as rodas traseiras. O que existe é você, controlando um câmbio manual de seis marchas e uma embreagem. E ao contrário de alguns turbos modernos, que por sua imediata entrega de torque faz um câmbio manual um exercício incessante de trocas uma atrás da outra, aqui existe só prazer de se trocar onde e quando se quer.

Os bancos e a posição de dirigir são perfeitos, os mostradores claros e analógicos em nossa frente, e existem botões ao invés de telas sensíveis ao toque. Simplesmente nada do que desprezamos no carro moderno, e tudo que gostamos nos carros esporte de outrora, juntos numa verdadeira coletânea “greatest hits” dos últimos 40 anos do automóvel. O M3 E46 é uma das coisas mais incríveis já criadas pela humanidade.

O E46 M3 foi uma fase realmente interessante.  Apesar de já ter sido feito para proteger os ocupantes em acidentes, ainda não precisava de capô longe do motor para servir de colchão para cabeça de pedestres que entram na nossa frente inesperadamente com a cara colada no celular. Assim, sua mecânica e espaço útil de passageiros/carga são cobertos com uma carroceria que parece lycra esticada no corpo de um ciclista: sem nenhum espaço sobrando. Do fim da abertura das rodas, alargadas por para-lamas extras até o fim dos largos pneus, até o topo do para-lama, uma estreita quantidade de metal existe.

Também não existia as confusões de M3 e M4; só M3 existia, e ao contrário do E36, só na forma de cupê e conversível. Nada de sedã formal aqui. E já que estamos falando disso, não consigo me segurar: sem banco colorido de gamer, e sem grade exagerada. Ao mesmo tempo que é agressivo com seus paralamas e pneus enormes, é também sóbrio e elegante como o sedã adulto de quem derivou. Um tipo de BMW que, infelizmente, sumiu do mapa. O que o faz, desde já, um clássico procurado e cobiçado, como tudo que é bom e fica raro.

Aqui no Brasil recebemos até uma quantidade boa de M3 E46. Mas todos eles fechados, cupês. Os conversíveis, única outra opção de carroceria nesta geração de M3, inexplicavelmente não foram importados oficialmente. O que é triste: tem tudo para ser uma ampliação do prazer em um carro onde ele já transborda em profusão, algo quase obsceno.

Mas então, como é que estamos vendo um deles aqui, nas fotos deste ensaio? Bem, o como e quando isto aconteceu, é a história que vamos contar hoje.

Rafhael e suas BMW

Rafhael da Silva Carneiro (@mt6.garage), de Brasília, começou cedo: no dia de seu aniversário de 19 anos comprou um Opala SS 1972, de verdade, não clone, na cor Laranja Solar. O Opala foi um aprendizado, uma escola de mecânica e restauração. Um aprendizado que ainda continua, por sinal; o carro ainda não está pronto, e deve receber um V8 de 5,7 litros.

Depois do Opala veio um Omega, a sua evolução normal. Mas a dificuldade de se achar peças acaba o levando ao mundo das BMW. Sua primeira foi uma 325i E90. Se provaria um caminho sem volta. Rafhael pegou o vírus da marca de Munique de forma completa e incurável. Hoje é um grande especialista da marca, fazendo inclusive conversões de câmbio SMG para manual e outros projetos para clientes de todo o Brasil.

“Depois dessa primeira E90, comprei um cupê E46 branco manual (minha primeira E46), e daí, cara… foi tudo ladeira abaixo. Comprei todo tipo imaginável de BMW.” – diz ele. É fácil de ver o quão grave é a doença de nosso amigo, olhando sua garagem hoje. Além do carro das fotos, uma cupê M3 E46 Vermelha, e a cupê M3 E46 branca de seu irmão, estão lá também uma perua E30 Touring turbodiesel, uma 316 E30 sendo transformada em réplica de M3, mas com motor V12 5.4 e câmbio manual, e uma E91 Touring em processo de conversão para M3 também. Note que a BMW nunca fez uma M3 E90 Touring, mas é claro que esse detalhe não impede nosso amigo de tentar.

Como se pode ver, Rafhael tem um gosto pelo raro, diferente, inexistente. E é exatamente por isso que tem uma M3 E46 conversível no Brasil. Como não existia, ele fez uma. O ponto de partida, há 8 anos atrás, foi a compra de um 330Ci 2001, que seria totalmente desmontada, pintada e remontada como uma M3. Rafhael já sabia a cor, as rodas e a especificação exata para a M3 que faria ele mesmo. Tinha, inclusive, todas as peças diferentes já compradas.

O 330ci original veio já com os bancos Motorsport, o que ajudou um pouco. Mas tudo teve que ser trocado: a mecânica (com inclusive o câmbio manual de seis marchas), os para-lamas, rodas, freios, suspensão, retrovisores, capôs, e tudo mais que diferencia a M3 do série 3 normal.

E o mais incrível: absolutamente tudo foi feito pelo Rafhael e seu irmão, na garagem de casa. Apenas a pintura foi feita fora. Esta transformação foi importante para ele de várias formas: além de conseguir o carro que sempre sonhou, lhe deu conhecimento e coragem para realizar outros projetos difíceis.

O carro, segundo ele, é totalmente confiável: “É perfeito para usar nos fins de semanas e viagens. Apesar de ser um carro de alto desempenho e diversão, é também perfeitamente usável, viajo tranquilamente com minha esposa e filha dentro. E poder abrir o teto sempre que desejo é algo incrível.”

Se não tem aqui no Brasil, eu mesmo faço. Definitivamente precisamos de mais gente assim!

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