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Car Culture História

Teorias da conspiração: o carro a álcool de Ford foi boicotado por um magnata do petróleo?

Dizem que o carro flex e carro a álcool são coisas do Brasil, mas a verdade é que quando o Proálcool ainda estava engatinhando, na virada dos anos 1970 para os anos 1980, os americanos já fabricavam carros flex. Já contamos esta história Já contamos esta história anteriormente, no qual explicamos que a tecnologia flex e nem o carro a álcool são invenções brasileiras. Nosso crédito é tê-las feito funcionar em larga escala, isso sim. Mas foram os americanos que as inventaram — e que também tentaram matá-las.

Ao menos é o que diz uma das maiores teorias da conspiração do universo automobilístico: as petrolíferas conspiraram para matar os carros a álcool e o uso do álcool como combustível.

De acordo com a teoria, o magnata do petróleo John Davison Rockefeller percebeu que seu negócio poderia ser ameaçado pela nova criação de Henry Ford. Entusiasta dos combustíveis vegetais, Ford lançou uma versão “flex” do Ford T capaz de rodar com etanol, gasolina ou querosene — ou uma mistura dos três combustíveis. Como a Standard Oil de Rockefeller dependia do aumento do consumo de gasolina fomentado pela popularização do automóvel, ele supostamente influenciou o governo na criação da famosa Lei Seca, que proibiu a fabricação, manufatura e venda de destilados. Sendo o etanol é um produto da destilação, ele estaria proibido, o que eliminaria a possibilidade de popularizar os carros a álcool.

Mas será mesmo que Rockefeller agiu nos bastidores para proibir o álcool? Henry Ford planejava realmente popularizar o carro a álcool? Indo mais além: ele realmente criou um carro a álcool?

 

No princípio era o álcool

Embora tenha se popularizado globalmente nos últimos dez ou quinze anos como aditivo da gasolina (E10 e E15), o etanol foi o primeiro combustível dos motores de combustão interna. Nikolaus Otto criou o motor de quatro tempos queimando uma mistura de ar e álcool, e Samuel Morey inventou o carburador para dosificar esta mistura de forma mecanizada. Já contamos esta história anteriormente, mas isso aconteceu simplesmente porque o etanol era o combustível dos aquecedores domésticos e, por isso, isento de impostos, tornando-se mais barato.

Quando os primeiros carros surgiram, no final do século 19, ainda não havia um padrão de combustível para estas novas máquinas — havia até mesmo motores a vapor. Foi somente a partir de 1903 que o derivado do petróleo que conhecemos como gasolina se tornou o combustível regular para os carros. A partir dali, os carros passaram a ser desenvolvidos para rodar com gasolina. Lançado em 1908, o Ford T foi um destes carros.

Embora o querosene fosse o combustível líquido mais popular da época, o uso da gasolina era recomendado pelos fabricantes por questões de lubrificação. A primeira geração de carros americanos consumia mais óleo do que combustível, e a gasolina solucionou este problema por ter propriedades lubrificantes.

 

Uma pequena crise de combustíveis

Se a gasolina foi a solução para os motores, os motores foram um problema para a gasolina: o crescimento da produção de automóveis aumentou a demanda pelo combustível, ao mesmo tempo em que a popularização da luz elétrica reduziu a demanda por querosene.

À primeira vista parece uma questão fácil de resolver: basta inverter a proporção da produção. Isso é possível com os métodos atuais de destilação, mas ela ainda não havia sido desenvolvida na época, o que significa que os derivados do petróleo eram obtidos por destilação simples, método que resultava naturalmente em uma proporção de querosene maior que a de gasolina.

A solução veio logo no ano seguinte, quando um novo processo permitiu o craqueamento térmico do petróleo bruto, que conseguia extrair mais gasolina de uma mesma quantidade de petróleo. Mesmo assim, a demanda era maior que a capacidade de produção e ainda havia alguma demanda externa por querosene — que resultava na gasolina destilada.

Para suprir a demanda, as refinarias passaram a misturar os diferentes tipos de gasolina além de eventualmente adicionar querosene. Como até então a gasolina praticamente não tinha aditivos, a Ford respondeu ao novo combustível reduzindo a taxa de compressão do motor 2.3 do Modelo T de 4,5:1 para 3,98:1, e modificando o perfil do comando de válvulas.

Além disso, o Modelo T vinha equipado na época com carburadores Holley das séries G e NH, que tinham um ajuste da agulha para alterar remotamente a mistura ar-combustível no corpo do carburador.

O sistema foi criado para compensar a variação de altitude, mas o ajuste também possibilitou regular a mistura ar-combustível para outros tipos de combustível, como benzeno, álcool isopropílico, querosene puro e, claro, álcool.

 

“O combustível do futuro”

Esta pequena crise dos combustíveis levou Ford a iniciar pesquisas com o álcool como combustível. Tendo crescido em uma fazenda, Ford conhecia o potencial de produção de álcool de origem vegetal — o processo fora desenvolvido no século 19 e era usado pelos fazendeiros para produzir combustível para aquecedores. Foi por isso que Ford usou um motor a álcool em seu primeiro automóvel, o Ford Quadricycle, desenvolvido em 1896 ainda por sua primeira empresa, que acabou falindo em 1901.

Ford e seu carro a álcool

Em 1916 a Ford obteve os primeiros resultados. Um relatório enviado à imprensa na época dizia o seguinte: 

Usando álcool em um carro comum da Ford conseguimos 15% mais potência do que com a gasolina atual, embora a autonomia não tenha sido muito alta. Contudo, é uma questão de consumo, algo que pode ser ajustado e regulado. […]

Os materiais que usamos nos laboratórios para produzir álcool de forma barata foram diversos tipos de grãos e substâncias vegetais. Os testes foram feitos com milho e trigo, depois tentamos com batatas, uvas, cerejas, pêssegos, groselhas, morangos e todo tipo de frutas pequenas. Cenouras, nabos, beterrabas, cana de açúcar e madeira também foram usados. Também descobrimos que os resíduos — como cascas de maçã e caroços de cereja; resíduos de produção de açúcar e talos de legumes, normalmente descartados em uma fazenda, tinham um valor de produção alcóolica surpreendente alto.

Um dos melhores materiais que encontramos foram os pés-de-milho. Mexidos e fervidos produziram um alto percentual. Um acre (aprox. 4.050 m²) de pés-de-milho produzem 100 galões (378 litros) de álcool — alguns tipos de milho podem produzir 50% mais. Depois o destilador ainda pode vender os resíduos de volta ao fazendeiro como comida para o gado. Nada é tirado além do álcool — todo o nitrogênio ainda está lá, para voltar ao solo como fertilizante.

Os resultados positivos entusiasmaram Ford, que se tornou um defensor do combustível vegetal. Em entrevista ao New York Times, concedida em 1925, ele disse o seguinte:

“O combustível do futuro virá dos frutos como os sumagres que crescem nas estradas, ou das maçãs, sementes, serragem — quase tudo. Há combustível todo vegetal que possa ser fermentado. A produção anual de um acre de batatas tem álcool suficiente para mover o maquinário agrícola por 100 anos”.

 

A Proibição

Paralelamente às mudanças nos combustíveis e aos experimentos da Ford com álcool combustível, o  Movimento de Temperança, um movimento social contrário ao consumo de bebidas alcoólicas, começou a ganhar força a ponto de colocar em pauta a discussão sobre a abstinência que levaria à aprovação do Volstead Act, que deu início à proibição da fabricação, manufatura e consumo de álcool.

Isso aconteceu por meio da campanha da União Feminina Cristã de Temperança, um do principais grupos de pressão na campanha que levou ao Volstead Act, que iniciou a lei seca nos EUA em 1920.  É aqui que JD Rockefeller entra em cena nessa história: o magnata foi o maior financiador da organização, e graças ao seu apoio financeiro as mulheres cristãs conseguiram elevar a discussão sobre o consumo de álcool ao nível nacional.

Por que Rockefeller apoiaria o banimento do consumo, produção e manufatura de álcool? A resposta fácil seria: porque ele não queria que produzissem álcool para os carros. Mas esta não é uma teoria conspiratória como as outras duas da nossa série.

Jamais saberemos o que aconteceu com Rudolf Diesel, ou se John DeLorean planejava realmente usar dinheiro de drogas para salvar sua marca. Mas a teoria Rockefeller vs. Ford tem uma resposta plausível.

 

Os fatos

Rockefeller não financiou o movimento de temperança como um investimento para seus negócios. Ele já era um doador frequente desde os anos 1880, e sua esposa Laura Spelman Rockefeller foi uma das fundadores da União Feminina Cristã de Temperança, além de ter bancado seu sogro para que ele pudesse fazer pregações ao movimento. Além disso, ele já havia deixado o comando dos negócios em 1895, passando a dedicar-se apenas à filantropia.

Claro, isso não significa que Rockefeller não tinha intenção comercial alguma com suas doações — o cenário poderia muito bem ser apenas convenientemente adequado às suas crenças. Mas há uma série de outras evidências de que sua intenção era apenas reduzir o alcoolismo e seus efeitos colaterais nos EUA.

A primeira é que a Lei Seca não proibia a produção de álcool para uso como combustível, apenas para consumo como “beverage”, uma palavra sem tradução que designa qualquer bebida preparada como sucos, chás, leites, refrigerantes, cervejas, vinhos, uísque e qualquer bebida que não seja água. Ou seja: você poderia produzir álcool, só não podia produzir bebidas com álcool. Isso estava escrito logo no cabeçalho do texto da lei:

“Uma lei para proibir bebidas intoxicantes, e para regular a manufatura, produção, consumo e vendas de bebidas de alto teor alcóolico para fins de consumo, e para garantir o amplo suprimento de álcool e promover seu uso em pesquisas científicas e no desenvolvimento de combustível, corantes e outras indústrias lícitas.”

Além disso, Rockefeller não foi o único empresário a apoiar a Lei Seca: na época muitos industriais incentivaram a temperança porque acreditavam que a abstinência poderia melhorar o desempenho e o comportamento social de seus funcionários. O próprio Henry Ford acreditava nisso, tanto que quando construiu suas cidades no Pará, determinou que seus funcionários seguissem à risca uma dieta fornecida pela empresa — que não incluía nenhum tipo de bebida alcoólica.

Como se não bastasse, o próprio Ford foi um incentivador da temperança por meio da Anti-Saloon League, outro grupo contrário ao consumo de bebidas alcoólicas que influenciou a criação da Lei Seca. Ford, assim como Rockefeller, era um dos financiadores da organização. Por que ele apoiaria uma lei que prejudicaria seus negócios?

Manifestação da Anti-Saloon League

Também é sabido que Rockefeller sugeriu aos congressistas a inclusão da menção ao uso do álcool como combustível no texto da lei, visto que sua empresa produziu etanol brevemente durante os anos 1920 — mesma época em que Henry Ford concedeu sua entrevista ao New York Times, na qual falou que o combustível do futuro teria origem vegetal.

Por último, o Ford T nunca foi um carro a álcool. Ele foi desenvolvido como um carro a gasolina, para ser usado com gasolina (como dizia seu próprio manual) e somente os carburadores Holley NH e G tinham o ajuste da agulha que permitia o uso de outros “blends” combustíveis. O Ford T rodava com álcool por acaso, não pelo desejo de seu criador.

Com a evolução das técnicas de produção de combustíveis fósseis e com a produção de álcool não se mostrando tão eficiente quanto se esperava, a gasolina se tornou rapidamente o padrão dos carros em todo o mundo simplesmente porque atendeu melhor as demandas dos motoristas.