FlatOut!
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Pensatas

Um teste filosófico do controle de estabilidade

Não gosto de confessar isso, mas eu faço parte da geração que, extremamente preocupada com o bem-estar dos filhos, mudou completamente a maneira como se criam as crianças. Eu mesmo sou uma criança dos anos 1970; um mundo que hoje parece a idade da pedra neste assunto. Passava meus dias fora de casa, sabe-se lá onde, meus pais absolutamente despreocupados sobre onde andava; apenas estar em casa às 18h era uma regra que, se quebrada, tinha como consequência o pior dos castigos: não poder mais passar a tarde na rua com os amigos.

Hoje meus filhos raramente saem de casa, e não gostam de fazê-lo. Eu tenho certeza de que errei aqui, que devia ter deixado eles mais soltos. Mas fazer o quê? Não somos perfeitos. Apenas tentamos fazer o que nos parece melhor em cada situação que nos apresenta. Por algum motivo, minha geração se borrava de medo de que algo acontecesse à prole; nada aconteceu com eles por isso. Pelo menos atingimos nosso objetivo: estão seguros, trabalhando e assistindo aulas aqui em casa enquanto digito essas linhas. Pelo menos acredito que temos uma vida boa em família, com cachorros, quintal, dias de sol e saúde mental razoável. Acho que tudo vai acabar bem para eles. Espero! Mas sei que, como a vasta maioria de minha geração, errei em protegê-los demais do mundo lá fora. Por um simples motivo: o mundo, inevitavelmente, mostrará seus dentes a eles de uma forma ou outra, por mais que eu tente evitar isso.

O pior é que, intelectualmente, sempre soube que estava errado. É só observar o mundo à nossa volta: as pessoas mais evoluídas, interessantes, engraçadas e felizes normalmente são as que passaram por algumas tragédias pessoais e as superaram. Gente que teve uma vida de fartura, sucesso e felicidade ininterruptas são simplesmente insuportáveis. Tragédias são parte de nossa vida, tão importantes quanto as vitórias e felicidades supremas para realização pessoal de uma vida plena. Sem elas, não existe perspectiva, crescimento, aprendizado, resiliência. Sem ela, não existem adultos.

Mas divago; o ponto aqui é que a minha geração, não contente em estragar irremediavelmente nossos filhos, estragou também o modo que enxergamos o automóvel. Não mais uma máquina de expansão de liberdade pessoal, sua real função mais importante: dos anos 1970 em diante passamos a enxergar apenas tudo de ruim que, inevitavelmente, aparece quando desfrutamos algo realmente bom. E não, não estou falando hoje do pior dos medos paralisantes atuais, o fim do mundo num cataclisma climático. Falo do medo de morrer mesmo, em consequência de um acidente com carro.

As crianças modernas nunca vão saber quão divertido era empilhar uma turma numa caçamba de caminhonete e ir a algum lugar. A andar de pé no banco traseiro de um conversível de teto aberto segurando um santantônio, ou um encosto de banco dianteiro. Nunca vão viajar com os primos em cima de um colchão na traseira de uma perua com o banco traseiro abaixado. Nunca vão pegar sorvete numa tarde na praia, vinte moleques dentro do fusca. Todo tipo de felicidade e lembranças inesquecíveis que tive, negadas a meus filhos para evitar um possível acidente qualquer. Que burrice a minha.

Não, nós os amarramos em cadeiras e cintos de uma forma mais segura que um piloto da NASA. Deus nos livre que algo aconteça com eles! Como resultado, nada aconteceu com eles. Como pudemos desejar isso para eles? Por medo de sofrermos? Que egoísmo. Mea culpa, mea máxima culpa.

Pensar nisso me obrigou a parar para pensar um pouco na minha história com automóveis, vista por este prisma de acidente, morte e tragédia. Minha propensão a andar sempre muito mais rápido que os limites vigentes, frequentemente em carros criados numa época em que segurança veicular se limitava a oferecer cintos de segurança como opcional (que ninguém comprava), devia ser povoada de tragédias. Será?

Na verdade, olhando para trás nos meus quase 40 anos ao volante (35 deles habilitados), vejo claramente que todo acidente em que me meti foi por pura distração; por falta de atenção no que estava fazendo. Todos eles aconteceram a baixa velocidade também. O pior acidente que estive foi como passageiro: abaixo do limite da via, seguindo o fluxo do trânsito, alguém ao nosso lado não manteve a distância segura do carro adiante, acertou ele, e apareceu na frente de nosso carro. Esta pessoa pagou com a vida por seu erro, mas no nosso carro, felizmente não sofremos mais que um trauma psicológico de participar de algo assim.

Nunca sofri um acidente enquanto explorava limites de carros profissionalmente, andando realmente rápido. E não sou nenhum Senna, longe disso, sou um motorista de habilidade absolutamente mediana. Minha teoria sobre isso é simples: quando se está prestando atenção realmente no que está acontecendo, e se respeita não somente o seu limite como motorista, mas também os do carro e da via, é muito difícil um acidente ocorrer. O cara não precisa ser piloto para andar rápido nas ruas: precisa apenas prestar atenção e tomar muito cuidado. Acidente ocorre não quando você está concentrado e prestando atenção; ocorre quando você se distrai. Pelo menos, esta é minha experiência de vida. Ninguém me contou essa; descobri sozinho, em milhares e milhares de quilômetros que, graças a Deus, já rodei por este mundo afora.

O que não quer dizer que não tenha ultrapassado os limites algumas vezes. Mas sempre que aconteceu, o local tinha espaço, e estava vazio; de novo, a atenção e o medo de algo dar errado, andando bem na frente do entusiasmo. Medo é um poderoso aliado na vida, mas não o medo paralisante, que acaba com toda a vontade de ir adiante, de fazer coisas arriscadas. Medo é bom quando é vencido aos pouquinhos, porque preserva a saúde e nos faz evoluir.

E foi com este medo controlado que, neste fim de semana, procurando entender um pouco mais o carro da família (um VW Virtus MSI 2019, câmbio manual, comprado zero há exatamente dois anos), fiz alguns testes particulares. Confesso que em dois anos apenas usei o carro, sem prestar muito atenção; estava na hora de entender melhor algumas coisas a respeito de seu comportamento. Um experimento científico necessário para uma pessoa como eu, que passa a vida tentando entender esta máquina ainda misteriosa chamada automóvel.

Explico: gostava muito de andar com ele forte, mas ainda longe do que percebia como seu limite de aderência; se chegasse perto dele os sistemas de controle de tração ou o de estabilidade interferiam, algo que sempre me incomodou. Quando entram, simplesmente toda a diversão e concentração no ato de dirigir se esvai; não estou sozinho aqui fazendo isso. Não sei vocês, mas ter um robô tomando o controle do carro de mim me incomoda sobremaneira, então me mantinha sempre abaixo do momento em que as babás robóticas entravam em ação.

Não, não acho controle de estabilidade algo totalmente ruim e maligno, longe disso; em viagens debaixo de chuva e em terreno desconhecido, é algo desejável até. Mas para diversão ao volante, definitivamente não. Mais que isso: eu quero sempre estar no controle completo do meu carro, e por consequência da vida enquanto dentro dele, para o bem ou para o mal; é um dos únicos lugares em que isso ainda é uma possibilidade real na vida do adulto moderno.

Não pagaria por essas babás, se pudesse escolher, mas hoje em dia, não posso escolher: tenho que ser protegido da minha própria irresponsabilidade por políticos de todo o mundo, aqueles bastiões da integridade e virtude. Mas como disse, não é de todo ruim: pelo menos não é um sistema que nunca pretendo usar, como os airbags explosivos também caríssimos, escondidos debaixo do volante e do painel, pelos quais tenho que pagar compulsoriamente também.

Mas voltando ao assunto: o controle de tração do meu carro não pode ser desligado, mas o de estabilidade sim. Tem que achar o submenu na tela central para fazer isso, e quando se desligar o carro, ele volta a ficar ligado, mas é possível. Resolvi finalmente entender um pouco melhor sua atuação. Arrumei uma curva asfaltada com bastante espaço, em um local deserto (que felizmente ainda existe aos montes aqui pelo interior), e em nome do esclarecimento científico, comecei meus testes. A curva em questão se assemelha à alças de acesso em rodovias: larga, em subida, raio bom, mas fechada.

Slow in, fast out: um clássico meio de fazer curva.

Um carro de tração dianteira como o meu normalmente pede que se entre forte na curva, e se saia devagar dela; mesmo assim eu sempre gostei de entrar devagar e acelerar durante a curva, saindo rápido, por motivos puramente pessoais; não é o mais rápido, mas é como me sinto melhor. Por isso, já sabia como o controle de tração funcionava numa curva assim: segura o acelerador à minha revelia. Na verdade, é algo estranhíssimo: pode se entrar na curva com pé em baixo, cravado. O carro sozinho vai acelerando até o ponto de derrapagem, corta aceleração, volta acelerar… chega a ser engraçado (meu filho sempre ri), mas é algo que me incomoda. Não há necessidade de se envolver no ato de dirigir aqui, não precisa de finesse, jeito, cuidado ou atenção. Estranhíssimo.

Mas ali queria testar o outro jeito de fazer a mesma curva: entrando forte. Mas mais que isso, entrando errado, claramente tentando provocar uma derrapagem; queria ver como o controle de estabilidade se portava. Incrível: rodas diversas têm freio acionado individualmente, e para minha surpresa, mesmo tentando errar de propósito, não consegui causar uma derrapagem. O carro contorna a curva, um anjo invisível, eletrônico, intervindo claramente. Sinceramente, não sei o que alguém teria que fazer para se meter em fria com um carro assim. Fazer essa curva errada de propósito, e ver o jeito que o carro endireita o curso sozinho é um sentimento muito estranho, e conflitante: seguro, claro, incrivelmente seguro. Mas ao mesmo tempo…

Parti para outro teste então: um passeio na estrada dos Romeiros com o sistema agora desligado. Sempre adorei o comportamento do carro ali a 8/10, e por isso achei que sem o controle de estabilidade, talvez fosse algo positivamente divertido. Ledo engano. O carro ficou horrível para dirigir, com limites menores que antes, e um subesterço terminal, chato, horrível, cedo. Descobri que os 8/10 com o ASC ligado na verdade devem ser equivalentes aos 10/10 com ele desligado. Sim, o sistema estava atuando sem eu perceber. Na verdade, muito antes de eu perceber. Agora acredito que freia a roda interna discretamente para rotacionar o carro e impedir subesterço prematuro. É mole?

Certamente ninguém na VW se preocupou em acertar o comportamento do carro sem o ASC funcionando, porque ficou ruim pacas. A grande verdade então é que nunca mais vou desligar ele; o carro fica ruim com o sistema desligado, afinal de contas. Uma decepção completa. Para meu uso pessoal, realmente vou precisar comprar um carro de pelo menos 30 anos de idade, da época em que dirigir acima do limite, com controle, era não só desejável: era necessário. Um carro em que eu esteja no controle, e não um robô.

É tudo, de novo, algo que gira em torno da velocidade. O que este sistema está fazendo, na realidade, é aumentar a capacidade de velocidade do carro; simplesmente será sempre mais veloz com o sistema ligado. Existem carros mais rápidos quando o controle de estabilidade está desligado, sim, mas não é o caso aqui. E, suspeito, deve ser o caso na vasta maioria dos carros modernos. Se velocidade é seu objetivo final, se você acredita que mais rápido é sinônimo de melhor, estamos melhor. Eu não aposto corrida nem meço tempo nunca: prazer ao volante é meu único objetivo sempre, e parece que carros que proporcionam isso estão cada vez mais raros.

Não sei realmente se estes sistemas de segurança ativa são realmente bons. Lembrem-se de minha experiência pessoal que acabei de contar: acidentes acontecem nunca por velocidade alta demais, ou explorar limites do carro. Ocorrem por distração, ou negligência, sua ou de outros. Mas este sempre foi o problema: educar o motorista a levar a direção a sério, sempre prestar atenção no que faz, e estar preparado para reagir de forma adequada, é algo que nunca foi tentado como medida de diminuição de acidentes. Apesar de claramente dar resultados bons consistentemente: veja a Alemanha e a Suécia por exemplo, onde dirigir é levado a sério, e o resto do mundo, onde não é.

Exigir responsabilidade pessoal em troca de liberdade individual parece estar cada vez mais fora de moda. Prego no deserto, claro. Mas se eu e minha geração podemos olhar para trás e ver onde erramos ao negar toda sorte de experiências à nossos filhos em nome da segurança, as próximas também podem mudar. Segurança pessoal não pode ser o objetivo final de todos, afinal de contas, ou nunca mais sairíamos de casa. A tragédia é parte da vida, assim como a felicidade, and all that… Acredito piamente que gerações futuras mudarão isso, assim como esta mudou tudo de 1970 para cá.

A humanidade, apesar do que dizem por aí, sempre evolui, sempre fica melhor, ainda que momentaneamente possa chafurdar na lama. O futuro, afinal de contas, não está escrito.