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Viagens e Aventuras

USA Road Trip: três amigos em uma viagem de carro pelo oeste dos EUA

Três amigos, alguns carros e uma aventura pelo famoso Oeste dos EUA. É o que o leitor Jonathan Umbach irá compartilhar conosco nesta grande história vivida nos últimos meses. Se curtir as famosas estradas dos EUA dirigindo um carro bacana é uma das suas metas na vida, este post vai ser uma mão na roda — e um belo aperitivo.

Olá, FlatOuters! Meu nome é Jonathan, ou einszweidrei no Disqus. Tenho 21 anos e moro no interior do Rio Grande do Sul. Os destinos no oeste dos EUA, ou seja, a viagem como um todo foi marcada pela sua aleatoriedade, por exemplo: em novembro de 2014 ainda não sabíamos ao certo os destinos que visitaríamos em janeiro de 2015. Mas vamos pelo começo: eu e mais um amigo decidimos visitar outro amigo que está nos EUA pelo Ciência sem Fronteiras. Seria uma oportunidade única , pois podíamos economizar bastante dinheiro, dividindo despesas como o aluguel dos carros e pernoites.

Algumas semanas antes da partida tínhamos a rota pronta: começaríamos no dia 1º de janeiro em San Francisco, permanecendo lá por quatro dias, dos quais um seria destinado a visitar o Lake Tahoe, que fica a 250 km ao nordeste da cidade. Após esse período sairíamos em direção a Los Angeles, descendo a famosa estrada costeira, a Highway 1, permaneceríamos seis dias em LA para depois cruzar o deserto e chegar em Vegas, de onde teríamos mais um dia para visitar o Grand Canyon. A idéia era visitar ainda o Colorado, mas como teríamos apenas três dias para conhecer Aspen e ainda dirigir por quase 2.000 km para voltar a San Francisco, esse plano foi cancelado.

Como somos todos estudantes e queríamos economizar alguns trocados, decidimos usar o serviço de “shared homes” pelo Airbnb, no qual dormiríamos em casas particulares em vez de hotéis ou pousadas. Tentamos até usar o serviço de carros compartilhados, mas para alugar carros por esse meio, estrangeiros devem ter no mínimo 25 anos de idade. Então decidimos não reservar nada e alugar os carros ali na hora mesmo, uma decisão que trouxe várias surpresas durante a viagem.

 

San Francisco

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Logo de cara já dava para perceber que essa não era a típica cidade americana, com suas ruas “estreitas”, morros e casas em estilo vitoriano, a cidade chega a ter um ar europeu. Senti falta dos possantes Crown Victoria e Cadillacs dos anos 1980 — os únicos antigos bem representados pareciam ser Mercedes. Até por aí tudo bem se não fosse o fato de a cidade, assim como a Califórnia inteira, ser inundada pelo maldito Prius.

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Logo no primeiro dia já visitamos alguns pontos turísticos, incluindo a região conhecida como Fisherman’s Warf, além do interessantíssimo museu Mecánique, com seus fliperamas e máquinas de jogos de todas as épocas.

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Outra atração imperdível é a ilha com a prisão Alcatraz (acima), que oferece tours também à noite, e que precisam ser agendados com bastante antecedência. Fica a dica.

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Lake Tahoe

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No terceiro dia saímos cedo e fomos à locadora Enterprise em North Beach, que ficava perto do nosso apartamento. A decisão se mostrou um erro, pois as opções de carros eram poucas e a localização encarecia ainda mais o aluguel. Pegamos um mid-size e ficamos com um Dodge Dart, o preço: US$ 118, incluindo o seguro para menores de 25 anos, um tanto salgado.

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Após uma viagem de três horas, em uma linda estrada que passa por florestas e montanhas, finalmente chegamos à parte norte do lago; ao lado, uma cidadezinha com casas de madeira, rodeadas por pinheiros e neve. É assim que imagino o Canadá. O lago tem uma água totalmente cristalina.

 

Highway 1

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Para nossa próxima jornada precisávamos novamente de um carro, desta vez foi um Chevrolet Malibu da Fox Rental Cars, que permaneceu conosco por dois dias e que, junto com a taxa de retorno em outra cidade, nos custou dolorosos US$ 270.

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Todos os guias e blogs que eu tinha lido recomendavam que levássemos no mínimo três dias para descer de San Francisco para Los Angeles pela magnífica rota costeira, mas como não paramos em todos os pontos e vilas à beira da estrada, achamos que dois dias foram suficientes.

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Vale também mencionar que a estrada não percorre diretamente a costa em sua totalidade, em muitos pontos a Highway 1 se junta com a Highway 101, para logo depois se separar de novo. O percurso mais bonito e mais demorado fica no eixo com cerca de 70 quilômetros que engloba Monterey, Carmel e Big Sur (na foto acima e nesta abaixo), com sua paisagem deslumbrante e curvas muito fechadas que contornam morros rochosos, me deixaram com o desejo de voltar lá futuramente, desta vez com um Porsche, talvez daqui a 30 anos.

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Los Angeles

Em San Francisco era tranquilo depender do transporte público, mas em Los Angeles isso era praticamente impossível. Para piorar, o grande número de carros dificultava a locomoção na cidade; adiciona-se a isso a existência de bifurcações inesperadas nas vias expressas e muitos motoristas bastante agressivos (geralmente dirigindo um Prius, é sério!), e temos como resultado o pior trânsito dos EUA, segundo muitos americanos. Mas era em Los Angeles que se via o maior número de máquinas por metro quadrado, Porsches, Corvettes e Teslas chegavam a ser artigo de massa, bem, quase.

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Logo na primeira manhã em LA, fomos ao aeroporto para devolver o Malibu e pegar o carro com o aluguel mais barato disponível na locadora, apenas para usar na cidade. Escolhemos um Focus, que seria nosso por US$ 42 por dia durante seis dias, nem imaginávamos o que estava por vir. Enquanto esperávamos na garagem pelo carro, junto com outros clientes, São Daimler resolveu iluminar o dia de todos que ali estavam: a funcionária da locadora começou a distribuir os carros, chegou para nós e disse: “Peguem um Mustang”, nós incrédulos ainda falamos que o Focus estava no nosso contrato, mas ela respondeu: “Eu dou o Mustang para vocês”, simples assim. Entramos no único Mustang vermelho dos quatro que estavam estacionados à direita e passamos a tentar entender o ocorrido, ainda ouvimos: “Devolvam ele inteiro”.

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Então, devidamente motorizados, passamos a semana visitando os pontos turísticos clássicos de LA, como Hollywood, Beverly Hills, o Observatório e as famosas praias. Visitamos também pontos turísticos menos conhecidos por turistas brasileiros, incluindo o California Science Center e o Nethercutt Museum, o único museu de automobilismo que possui em sua coleção todos os modelos do Rolls Royce Phantom, além de um raro Mercedes SSK e ainda um Tucker.

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Venice Beach

 

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Beverly Hills

 

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Observatório

 

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Rolls-Royce Phantom enfileirados

 

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Mercedes SSK

 

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O injustiçado Tucker

Nos metemos em lugares como um supermercado chinês que vende cabeças de atum e pés de galinha em bandejas de isopor como se fossem peitos de frango e até picolé de feijão (abaixo). Entramos até no bairro mais temido de LA, Compton, e para o nosso desagrado, era o lugar que mais se parecia com a típica cidade média no Brasil, com suas grades altas, ruas escuras e pichações por toda parte.

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Las Vegas

Infelizmente chegou a hora de darmos adeus ao nosso querido veículo, após tanto acordar seus 300 cvsnas vias expressas (e outras nem tanto), enchemos o tanque pagando apenas cerca de US$ 30 e devolvemos o carro, para pegar um maior, pois teríamos que levar umas três malas. À bordo de um Chevy Malibu, novamente, pegamos a Interstate 5 e partimos em direção a Vegas.

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A estrada cruzava um deserto muito interessante, com inúmeras colinas arenosas. À noite finalmente chegamos à cidade, iluminada por mil holofotes, demos entrada na pousada e fomos dar uma caminhada. No outro dia devolvemos o quarto carro e finalmente pagamos por não ter feito reserva: a Fox não tinha mais carros disponíveis para alugar, fomos então ao terminal do aeroporto, lá uma moça nos garantiu que sua locadora, a E-Z, seria a mais barata. E não só isso: ganhamos ainda um full-size a preço de compacto, um Toyota Camry com menos de 3.000 milhas rodadas. Danke, Herr Daimler.

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Mesmo que Vegas tenha muitas atrações, passamos mais tempo viajando pela região: fomos ao Hoover Dam, chegamos perto do check point da Área 51, no deserto, e ainda visitamos o imperdível Grand Canyon.

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Na cidade do pecado em vez de gastarmos em cassinos e festas, gastamos nosso dinheiro no estante de tiro chamado Clark County Shooting Complex, um lugar frequentado por pessoas do local, ou seja, bem mais em conta que os estantes feitos para turistas, onde se gasta facilmente US$ 200. Como somos iniciantes, fomos acompanhados por um instrutor que nos explicou tudo com muita paciência, o resultado: gastamos pouco mais de US$ 60 dando 100 tiros (9 mm e .45 acp) cada um em três pistolas diferentes, com instrução de graça! Uma brincadeira que passaria dos R$ 500  em terras brasileiras.

 

Grand Canyon

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O sol estava nascendo em Vegas quando partimos em direção ao Canyon, após umas 3 horas de viagem percebemos que a paisagem desértica, com pedras e alguns arbustos secos, estava se transformando em uma floresta de pinheiros, 5 milhas adiante, a floresta sumia e o deserto aparecia novamente para depois dar lugar a outra floresta, desta vez com neve! A paisagem ficou trocando um monte de vezes, até chegar ao ponto em que conseguimos colocar ambas numa mesma foto.

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Após cerca de cinco horas de estrada, chegamos ao Parque nacional do Canyon, estacionamos o carro e fomos até a borda desfiladeiro.

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Que lugar magnífico! E gelado. Como precisávamos voltar a Vegas no mesmo dia, ficamos apreciando a paisagem apenas até o sol se por; como era inverno, às 18:00 já estava escuro. Uma pena, eu teria ficado uns três dias fácil.

 

Sequoia Park e South Lake Tahoe

No dia 17 de janeiro, devolvemos o Toyota Camry no aeroporto e pegamos o carro full-size mais em conta que conseguimos: um Nissan Altima da locadora Payless. O preço foi o mais alto dos seis carros que alugamos: US$ 460 por quatro dias; o motivo: devolução em San Francisco. Por sorte ainda tínhamos um dia inteiro em Vegas pela frete, por causa da mudança do plano original (não íamos mais ao Colorado). Sorte, pois logo descobrimos que o Altima pé-de-boi que havíamos pego estava com algumas luzes acesas no painel, uma delas indicava que um pneu estava bem mais murcho que os outros, tanto que dava pra sentir no volante.

Os problemas não paravam por aí, havia vibrações estranhas no motor e a bateria estava bastante corroída, qual era a chance de dar algum problema nas 800 milhas de viagem que tínhamos pela frente? Pois é, ligamos para a locadora, que nos mandou trazer o carro de volta ao aeroporto. Chegando lá, o Santo de todos os gearheads fez com que recebêssemos mais carro pelo nosso dinheiro: já que a Payless estava com todos os seus sedãs grandes rodando, tiveram que nos dar um SUV, um Kia Sorento.

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Na manhã do dia 18, antes de deixar Las Vegas, fomos ainda ao Shelby Museum, mas ele estava fechado, pois era domingo, passamos uma última vez pelo centro da cidade e partimos em direção ao parque das sequoias gigantes.

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Passamos a noite em Tulare e na manhã seguinte continuamos a viagem sob uma densa neblina, entramos na state route 245 que passa por vários laranjais, depois de alguns quilômetros, o cenário ao redor se torna muito bonito: a via estreita cheia de curvas cercada por árvores começa a subir morros e entrar numa floresta cada vez mais densa, até chegar ao parque nacional.

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O parque em si é muito grande e ainda faz fronteira com outro, o King Canyon National Park. Até chegarmos às sequóias gigantes, tivemos que dirigir por alguns quilômetros para deixarmos o carro num estacionamento que fica a apenas 1 km da General Sherman, a árvore cujo tronco tem a maior circunferência de todas as árvores no mundo.

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Enquanto anoitecia, saímos do parque novamente e continuamos a nossa viagem em direção ao Lake Tahoe, porém desta vez o plano era conhecer a região ao sul do lago. Pretendíamos passar a noite em Sacramento, mas os hotéis eram caros e as pousadas acomodavam pessoas de caráter duvidoso, um cara que estava fumando na sacada puxou uma meia para encobrir o rosto enquanto estacionávamos. Decidimos dirigir por mais alguns quilômetros e passamos a noite em Auburn numa pousada chamada Elmwood, que deve ser a pior de toda a região: colchões muito desconfortáveis, cobertores imundos, mau isolamento acústico, a água da pia saía branca, o carpete era muito sujo, eu poderia encher uma página inteira. Recomendo ler os reviews no Yelp, chega a ser engraçado. Mas pelo menos éramos praticamente os únicos hóspedes.

Após uma noite mal-dormida, não víamos a hora de sair do Elmwood, enchemos o tanque da Sorento e pegamos a estrada de novo, sem ao menos tomar café da manhã. Perto do horário do almoço chegamos à parte sul do Lake Tahoe, por sorte decidimos voltar lá, pois a paisagem era ainda mais bonita do que ao norte, a cidade que também se chama South Lake Tahoe é maior que a da parte norte e oferece muito mais restaurantes e hotéis, tem até cassino. O que não falta também é policial querendo aumentar o faturamento do county, nas estradinhas que percorrem o lago devia ter o triplo de policias do que em toda highway de San Francisco até o Tahoe. Muito cuidado.

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Chegava a hora de irmos ao destino final do nosso roadtrip, deixamos o Lake para trás em direção a SF ainda de tarde, pois na manhã seguinte, dia 21, ambos os amigos voltavam para seus respectivos lugares. Para mim a viagem não acabava ainda, eu permaneci na cidade por mais duas semanas, estudando inglês.

 

Algumas conclusões

Em cidade com milhares de habitantes, use e abuse do Airbnb ou semelhante, pernoitar em casas particulares é mais confortável e interessante e muitas vezes mais barato que em pousadas e Inns. Em cidades menores, não existe essa opção, mas o pernoite num quarto duma mesma rede chega a custar a metade do que custaria na cidade grande.

A combinação de metrópole, baixa temporada e retorno ao mesmo lugar não faz necessária a reserva do carro. Basta ir ao aeroporto, fazer algumas comparações e, de preferência alugue o carro duma locadora menor, e talvez você saia de carrão a preço de carrinho.

Também não aconselho passar correndo pelos lugares, visitar apenas os pontos turísticos não tem graça. Nosso principal erro durante a viagem foi ter apenas um dia para visitar cada parque nacional.

E por último: não caminhe bêbado na rua no meio da tarde, enrolado na bandeira do Brasil, eu vi isso e é feio. Muito feio.

Se chegaram até aqui, espero que tenham gostado do texto e obrigado pela leitura. Para finalizar, desejo que seus sonhos se realizem pra eu ler um monte de Project car/trip daqui para frente. Imagina se alguém com um Project car finalizado pegasse o carro para fazer um Project trip. Tomara que eu veja isso ainda.

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