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Pensatas

Yamaha XTZ 150 Crosser, um ano depois: não é você, sou eu

“O Uno Mille das motos”, foi o que um dos leitores comentou quando publiquei minha primeira tentativa de avaliação no FlatOut. Uma avaliação feita por um motociclista iniciante: apesar dos dez anos de habilitação, a moto comprada no fim de 2019 foi a primeira em que dei mais do que uma voltinha pelo quarteirão. Hoje, 14 meses depois da entrega, ela marca seus 4.500 km no hodômetro. Ainda nem chegou a hora da segunda revisão.

Nesses pouco mais de dois anos de convivência com a Yamaha XTZ 150 Crosser, a maior parte dos momentos foi de plena satisfação com a motocicleta – e cada segundo em cima dela foi de aprendizado. Não apenas sobre andar de moto, mas sobre mim mesmo e o tipo de motociclista que eu sou.

Não precisar montar na moto todos os dias para ir trabalhar te dá liberdade, mas também pode te confundir. Às cegas, por impulso, decidi que compraria uma moto para aprender a andar de moto, me divertir e conhecer meus arredores de outra forma. Sem uma ideia formada, entrei na concessionária Yamaha da região e, como não quer nada – e sem entender nada, admito – comecei a olhar as motos de perto e perguntar coisas. Uma moto menor, de entrada, com bom custo-benefício. O vendedor me indicou a Fazer 250, street com ares de naked que parecia mesmo uma moto maior. Fiquei tentado, mas queria saber mais. Pensei nas estradas de terra. Que tal a XTZ 250 Lander, que tem praticamente o mesmo motor, mas tem curso de suspensão e vocação dupla?

O ritual de montar na moto, acelerar, observar tudo cuidadosamente, descer, subir em outra moto e fazer a mesma coisa, olhar as duas lado a lado e se imaginar em uma delas não fez muito por mim e eu fui dar um passeio pela loja, olhar outras motos – maiores e mais caras, do tipo que eu enxergava como uma realidade distante e inalcançável. Até porque eu nem sabia se iria pegar gosto pela coisa. Mas lá estava eu, em uma loja de motos, com nome limpo e precisando experimentar coisas novas.

A falta de experiência, porém, me fez desistir das motos maiores. Quase imediatamente também descartei as motos street menores, de 150cc – queria algo com mais presença. E também comecei a pensar em todas as estradas de terra ali, do lado de casa, para explorar. E, então, eu a vi: a Yamaha XTZ 150 Crosser.

A primeira foto em casa, e provavelmente a pior de todas

 

Seu visual me impressionou pela mesma razão que me faz gostar dela até hoje. A Crosser parece uma moto maior – as carenagens volumosas ao lado do tanque têm um desenho bem elaborado e bom acabamento – fazem o tanque parecer bem mais avantajado do que realmente é e escondem bem o motor pequeno. Os pneus de uso misto (90/90-19 na frente e 110/90-17 atrás), dando uma postura robusta à Crosser, e nota-se mais capricho na montagem e na construção em relação à Honda NRX 160 Bros, sua principal concorrente.

Saber que a Crosser tem ABS no freio dianteiro, freio traseiro à disco e indicador de marcha no painel também me agradou – os dois primeiros me deram confiança, e o segundo é uma conveniência da qual eu sentiria bastante falta caso ela não tivesse. E a XTZ 150 também é uma motocicleta muito confortável, seja pela ergonomia típica das trail e dual-sport, seja pela suspensão de curso longo que transmite pouco as irregularidades do piso ao condutor.

Montado nela, mesmo parada, me senti mais à vontade do que em qualquer outra moto da loja. O problema é que eu nunca havia andado de moto direito antes.

 

Nem tudo é o que parece

Uma coisa bacana do FlatOut é ter liberdade para abrir um pouco mais o coração na hora de falar sobre algo – o que pode significar, também, assumir erros, reconhecer que não sabe tudo sobre tudo, e não ter medo de dizer “eu não sabia o que estava fazendo.” E eu não sabia o que estava fazendo quando comprei uma motocicleta.

Tudo o que a Crosser tem de bom não é o que eu quero de uma motocicleta, levando em conta o uso que eu faço desta motocicleta. Ela é ótima, mas não é para mim. E eu provavelmente também não faço o tipo dela.

É como conhecer aquela pessoa bacana e descobrir que vocês têm muita coisa em comum – ouvem as mesmas músicas, riem das mesmas coisas e frequentam lugares parecidos. É bom estar com ela, te faz esquecer dos problemas e se divertir. Vocês saem todos os fins de semana, às vezes só para se divertir, às vezes para algo mais. Mas falta aquele clique, aquele tesão.

Então, na hora de discutir se é só um lance ou algo mais sério, é preciso admitir: vocês não combinam tanto assim. Ela tem defeitos e manias que não são o fim do mundo, mas incomodam – e, na verdade, sequer são defeitos. Há quem goste. E você também tem culpa porque não sabia direito o que queria. Certamente haverá alguém que irá fazê-la muito feliz e apreciá-la pelo que ela é e faz. Mas talvez seja melhor vocês pararem de se ver.

 

É inevitável se sentir meio canalha depois disto. E é exatamente assim que eu me sinto após chamar a Crosser, a moto bonita, bem acabada, bem equipada e confortável, de “a moto errada para mim”. Acontece que também é preciso admitir: não combinamos tanto assim. Ela tem alguns defeitos que não são o fim do mundo, mas me incomodam – e, na verdade, sequer são defeitos. Há quem procure algo exatamente assim. E eu também tenho culá porque não sabia direito o que queria. Há muita gente que é muito feliz com a Crosser e consegue apreciá-la exatamente pelo que ela é e faz (muito bem feito, por sinal).

Eu pensei que iria utilizá-la muito mais nas estradas de terra, mas acabei rodando muito mais no asfalto. No começo, explorando as rodovias daqui – como a deliciosa SP-189, que liga Campina do Monte Alegre a Buri, estreita, deserta, pista simples, asfalto novo e muitas curvas, que se tornou um dos meus lugares favoritos. Depois, tomando coragem e indo até Lençois Paulista, a 200 km daqui, passando pela Castelo Branco e pela Marechal Rondon, vias duplicadas e rápidas. Eventualmente, com a garota na garupa e o dobro do peso em cima da Crosser.

Me dei conta de que, por mais que seja divertido explorar estradinhas de terra nos fins de semana – o que a Crosser faz muito bem (sem exageros, claro), eu gosto ainda mais de trajetos longos sobre o asfalto, com eventuais paradas para um cigarro e uma lata de energético. Fazer isto com a Crosser é possível, mas também um pouco frustrante.

O motivo são as limitações do projeto — das quais eu estava mais ou menos ciente quando bati o martelo: o motor tem um cisco acima dos 12 cv e 1,3 kgfm com qualquer combustível e empurra a moto com desenvoltura na cidade e em estradas de chão batido. Na rodovia, porém, retomadas em ultrapassagens precisam ser avaliadas com cuidado. A Castelo Branco, uma via rápida e de fluxo razoável, é um cenário um tanto hostil para a Crosser. O motor anda quase o tempo todo no limite para manter-se entre 100 e 110 km/h, caindo para pouco menos de 100 km/h nas subidas. A velocidade final da Crosser é boa – com paciência e o vento a favor, ela passa dos 130 km/h no painel. Mas claramente ela sofre com isto. Uma sexta marcha longa, para girar menos e manter-se em velocidade de cruzeiro, seria uma solução talvez tão eficaz quanto um motor maior, e ainda não aumentaria o consumo de combustível – ao contrário. E a Crosser já é uma moto bem econômica, passando tranquilamente dos 30 km/L se usada com tranquilidade.

A questão é que não tenho direito algum de exigir mais do que esta motocicleta oferece. Primeiro, porque no ambiente correto – a cidade esburacada e as estradinhas de chão escondidas no interior – a Crosser é simplesmente perfeita. Mais alta e confortável que uma Street sem ser muito maior, com a mesma manutenção barata e a mesma parcimônia na hora de degustar combustível. Segundo, porque ela me levou para onde eu queria ir sem me dar qualquer tipo de susto e me mostrou o quanto é maravilhoso andar de moto, para onde quer que se vá. De quebra, ainda proporcionou minha primeira avaliação como jornalista.

Claro, tenho pouco mais de 5.000 km sobre duas rodas e ainda preciso pegar o jeito de muita coisa. Por sorte, agora que o Uno não está mais aqui, vou passar muito mais tempo em cima de uma moto. Por enquanto é a Crosser – o que significa que ela vai rodar mais em trajetos curtos e saídas rápidas, exatamente como foi projetada para fazer. O “Uno Mille das motos”.

Sempre fui intimidado pela ideia de andar de moto e hoje vejo que o velho clichê de “sair da zona de conforto” pode mesmo funcionar, e você pode acabar descobrindo mais sobre si mesmo e suas capacidades. Eu achava que uma moto pequena e barata, para iniciantes, me bastaria para o resto da vida. Até fantasiava com a ideia de passar anos, talvez décadas, com a Crosser. E, no começo do nosso “relacionamento”, a paixão me fez acreditar que seria assim. Mas a serotonina, responsável pelo brilho nos olhos e borboletas no estômago, baixou – e a ocitocina, que te dá aquela sensação de bem estar e segurança em um romance duradouro, anda meio em falta. Não é a Crosser, sou eu. E foi a própria Crosser que me mostrou isto.

Eu acho bonita exatamente como no dia em que a conheci. Não acho que ela seja a moto errada – sempre nos divertimos muito juntos e, por enquanto, não quero pensar no dia em que isto vai chegar ao fim. O dia em que ela estará livre para ajudar outra pessoa, seja a se divertir aos fins de semana, seja a ganhar o pão de todos os dias.

Mas sinto que não vai demorar até que os pequenos defeitinhos da Crosser – que, reitero, não são defeitos quando se leva em conta a proposta original dela – levem a uma nova moto. Talvez uma Trail maior e mais forte, ou talvez algo completamente diferente (mas também maior e mais forte). Ou quem sabe até uma moto menor e mais antiga para fazer companhia à Crosser – levar essa coisa de motociclista para um lado mais graxeiro. Posso não ter onde guardar um carro, mas outra moto…

Até lá, porém, eu e a Crosser seguimos nos dando bem – ainda que, como em toda relação, tenhamos nossos desentendimentos. E eu garanto que, não importa o que aconteça entre a gente, nunca vou esquecer da minha primeira moto.

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