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Pensatas

Sobre Jesse, o tempo e os automóveis


Passa em um piscar de olhos. Num dia você usa fraldas, no outro você já era. Restam só as memórias. Ao menos não precisa ser nada especial. Pode ser um lugar como qualquer outro lugar, uma cidade qualquer, uma casa como qualquer outra, uma viagem como todas as viagens em um carro como qualquer outro carro. Não importa como você fez. O que importa é ter feito, porque é assim que nascem as memórias.

Você sabe do que estou falando, Jesse e seu cachorro, o Fusca e a viagem sem fim.

É uma história como várias outras. A pessoas fazem isso desde que entenderam que há alguma coisa além do que os olhos conseguem ver. Descobrir coisas é parte da natureza humana.

A fase da descoberta é uma das mais importantes da nossa infância, porque a descoberta é a percepção da nossa própria existência. Um dia, existir é perceber que há algo além do seio materno. No outro, é perceber que há algo além das paredes do nosso quarto. Depois, é encontrar gente como a gente, os amigos, as paixões. Depois é a incrível capacidade de gerarmos um semelhante. E depois, é descobrir o que acontece depois de amanhã. Até o dia em que deixamos de existir.

É por isso que esta é uma história como várias outras histórias. Ela não é especial e você não deveria enxergá-la como algo especial. E isso não é desmerecer a jornada de um homem e seu melhor amigo canino. Porque o fato de ela não ser especial coloca os dois mais próximos de nós. Pega algo que parece um sonho distante e o coloca ao nosso alcance.

Porque, se esta era uma história como tantas outras, e Jesse era um homem comum, como tantos outros, significa que ele era como eu e você. E se ele era como eu e você, essa história poderia ser a minha ou a sua.

Parece que a humanidade esqueceu da sua própria impermanência. Que o nosso tempo é limitado, que cada dia não é “mais um dia”, e sim “menos um dia”, se você olhar pelo lado escuro. É importante ter sempre clara essa noção da passagem do tempo — e da sua finitude —, porque a gente não sabe de verdade quanto tempo temos por aqui.

Aliás, é justamente por não saber quanto tempo temos que realizamos tantas coisas. A escassez do nosso tempo é a base filosófica que leva toda religião — desde as orientais até as africanas, passando pelas abraâmicas — a condenar a preguiça de alguma forma. Caramba, você está vivo, não se sabe até quando, e você fica aí desperdiçando esse negócio escasso chamado tempo?

O fato de esta história não ser especial também mostra a força da realização pessoal. Jesse e seus companheiros – o animal e a máquina — cativaram as pessoas simplesmente por fazer algo ao alcance de qualquer adulto habilitado, com plenas faculdades mentais e disposto a pagar o preço da realização. Coisas que todos podem realizar, mas poucos realizam. Se a tragédia tivesse acontecido numa avenida de Floripa, não haveria tanta gente comovida como havia nesta última terça-feira. Essa é a força das realizações humanas.

É claro que é trágico e que ficamos todos comovidos, alguns desolados, com a tragédia. Mas ela também é parte da natureza humana. A fragilidade da vida é real, acontece com gente como eu e você numa terça-feira qualquer, e não pergunta se você está pronto ou não. Ela simplesmente acontece, por mais que a gente pense que, com todos os avanços técnico-científicos, é possível controlar o momento em que teremos nosso último dia na Terra.

O que podemos controlar é a iniciativa de realizar nossos planos — ou ao menos tentar realizá-los. Não estou falando para você largar tudo e viver da natureza selvagem como Alexander Supertramp. Estou falando sobre realizações. Fazer o seu trabalho, comprar sua casa, ter seus filhos, ser um bom amigo, tirar seu project car do papel, participar de um track day uma vez na vida, juntar um trocado para assistir à Fórmula 1, mesmo que seja no pior lugar. Qualquer coisa que não seja um desperdício de tempo — o que, no fim das contas, é desperdício de vida.

A história de Jesse também me provocou outra reflexão — agora sobre os automóveis. Já reparou que as pessoas que, como Jesse, decidem descobrir o que há além do seu horizonte, fazendo seu próprio tempo e seu próprio caminho, fazem isso com um veículo motorizado sobre rodas?

Isso diz muito sobre o significado sócio-antropológico-cultural do automóvel. Um carro não é uma máquina desumanizadora, como os teóricos da mobilidade querem nos convencer, com seus modelos matemágicos e teorias utópicas (ou seriam distópicas?). Ao contrário: um automóvel é uma máquina de humanidade. É só olhar para os olhos de uma criança em sua primeira viagem de carro.

É uma máquina que nos transforma em super-humanos. Um carro é a mais humana das máquinas, porque ele é uma realização humana nascida em sonhos coletivos. O sonho de ir mais rápido do que nossas pernas permitem, mais longe do que nossos músculos e pulmões suportam. Ir mais rápido e mais longe, no fim das contas, é simplesmente aproveitar melhor o tempo. Jesse jamais teria viajado 85.000 km em pouco mais de 1.400 dias sem um carro.

Não era sequer o carro mais adequado para sua viagem. Era uma máquina imperfeita — a mais humana das características —, mas que permitiu sua realização. Uma realização que, mesmo com o desfecho trágico, vai inspirar pessoas comuns, com histórias comuns, a não desperdiçar o tempo e a realizar seus sonhos, porque é isso o que as realizações fazem, por mais comuns que elas sejam: elas mostram que o homem comum jamais deve ser menor que seus sonhos.

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